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terça-feira, 23 de março de 2010

DE RAINHA A RELES Já foi o tempo em que a teologia era a Rainha das Ciências. Nos idos tempos da Idade Média, a ciência era medida como verdadeira pela sua consonância com os ensinamentos da Igreja. Quando discordava da teologia, morte aos hereges era a sentença, haja visto o que aconteceu a Galileu, entre outros. Já foi o tempo em que a Igreja reinou soberana e entronizava e destronava reis, promovia a Inquisição e não era questionada pela sociedade. Os poucos que a isto se aventuravam eram condenados. Lá se vão os tempos em que a teologia e a Igreja ditavam o que podia ou não ser lido, criando o Index, relação dos livros e autores proibidos. Idos são os tempos em que, como representante de Deus na terra, por ser Ele o Criador de tudo, a Igreja era a autoridade visível a administrar tal propriedade divina. Para tanto, a Igreja expedia autorizações para que os “descobridores” pudessem entrar em novas terras e dela se assenhorear, por terem a permissão divina via Igreja. A Igreja, ao longo dos séculos foi perdendo sua autoridade e vigência. Primeiro foi o questionamento feito por Lutero e os reformadores da autoridade espiritual da Igreja em perdoar pecados. Depois, o marco mais claro desta derrocada foi o Iluminismo, que questionou as verdades da fé, dos milagres e da própria existência de Jesus como divino. Junte-se a isto que o religioso Isaac Newton, com a lei da gravidade tirou o Deus que sustentava as estrelas e astros no céu, e reduziu-O a uma fórmula. Mais tarde, Marx tirou Deus da história e Freud o tirou de dentro do ser humano. Assim, com início no século XIX, a igreja veio perdendo seu espaço, vigência e poder na sociedade. A Rainha das Ciências se enrolou ao entender o que acontecia no mundo. Movimentos fundamentalistas e conservadores, tanto na Igreja Católica como nas Protestantes, ao invés de pensarem a fé como resposta ao mundo em que viviam e tentar dar respostas às perguntas que o momento histórico planteava, se limitaram a repetir antigas fórmulas teológicas e teólogos, como se Agostinho, Lutero, Calvino e Tomás de Aquino fossem os últimos iluminados. O advento da fragmentação religiosa que o mundo viu surgir, com o surgimento dos mais variados modos religiosos cristãos, notadamente os de corte pentecostal e neo-pentecostal, trouxe à tona uma miríade de “pregadores de abobrinha”, gente sem nenhuma formação bíblico-teológica, analfabetos bíblicos e que mal compreendem o que lêem, que tem tido acesso às rádios e televisões, vociferando suas “verdades” como se Vox Dei fossem. Arrogantes, petulantes e impostores, deram a pá de cal no sepultamento da credibilidade da Igreja. Gananciosos, transformaram a pregação em venda do sucesso, da riqueza fácil, anunciaram que “o fim justifica os meios” e a riqueza pessoal foi construída às custas das ofertas dos incautos. Ser Igreja hoje é ser vitrine para o escárnio, para a zombaria, para a desconfiança. Não fosse o profeta Jeremias quem disse que “ai de mim se me calar, porque tua voz me queima por dentro” e “fostes mais forte que eu e prevalecestes”, eu já teria pendurado as chuteiras. Marcos Inhauser

terça-feira, 16 de março de 2010

DECLÍNIO DAS IGREJAS

O movimento de “crescimento da igreja” nasceu nos EUA e se propagou mundo afora. Passados alguns anos de euforia, avaliações recentes tem mostrado que “apesar dos milhões de dólares em mídias, milhões de participantes, milhares de preletores, milhares de clínicas, simpósios, conferências, congressos e centenas de métodos e estratégias de marketing, as receitas para crescimento de igreja prescritas pelos norte-americanos não estão funcionando para eles mesmos”. Só as Assembléias de Deus nos EUA cresceram. Todas as demais igrejas históricas perderam membros, segundo relata o Anuário das Igrejas Americanas e Canadenses de 2010. Segundo a publicação, a Convenção Batista do Sul, segunda maior denominação dos EUA e por muitos anos uma das responsáveis pelo crescimento dos evangélicos, relatou um declínio no número de membros pelo segundo ano consecutivo, com menos 0,24%. O Anuário também relata declínio contínuo na membresia de praticamente todas as denominações. A Igreja Católica sofreu perda de 1,49%. A situação pode ser ainda pior, pois onze das 25 maiores igrejas não atualizaram seus relatórios. Entre elas: a Igreja de Deus em Cristo, a Convenção Batista Nacional e a Convenção Batista Nacional da América, respectivamente a 5ª, 6ª e 8ª maiores denominações nos EUA. Ainda mais crítica seria a situação se a maioria dos imigrantes não fosse oriundos de países com fortes tradições religiosas e que tem dado mais consistência a estes números. Mesmo as Assembléias de Deus cresceram tímidos 1,27%, de acordo com valores apresentados no Anuário. As igrejas com maiores percentuais de declínio são: a Igreja Presbiteriana dos EUA, com -3,28%; as Igrejas Batistas Americanas nos EUA, -2,00%, e a Igreja Evangélica Luterana na América, -1,92%. Os números relatados no anuário 2010 foram coletados pelas igrejas em 2008 e enviados ao Anuário em 2009. Segundo Julia Duin, editora de religião do The Washington Times, o percentual da população americana que é membro de alguma igreja – incluindo mórmons e testemunhas e Jeová, alcança hoje 49%, totalizando 147,3 milhões, pouco menos de metade da população americana". No Canadá, o quadro é ainda mais dramático. Mantido o percentual de declínio, que hoje totaliza 13.000 membros/ano apenas na Igreja Anglicana, em 2061 só haverá um só anglicano no país. (As informações acima foram retiradas da Revista Soma em artigo escrito por Philippe Leandro). Minha experiência em contato com vários líderes de denominações históricas me mostra que a situação no Brasil não é diferente. Ainda que não tenhamos números precisos o bastante para nos dar uma visão mais clara, há a constatação generalizada de declínio também nos vários ramos presbiterianos, metodistas e luteranos. Talvez os Batistas não enfrentem a coisa mais agudamente, mas creio que é questão de tempo. O que tem levado a isto? Uma pergunta que tentarei refletir e responder na próxima coluna. Marcos Inhauser

segunda-feira, 15 de março de 2010

CORPO ESQUARTEJADO

Não foram poucas as vezes em que, tendo buscado atenção médica para um problema de saúde, me senti esquartejado. Cada médico cuidava de uma parte de mim e não via ninguém me vendo como um todo. O advento das especialidades médicas teve o condão de dar a cada especialista mais conhecimento sobre uma porção cada vez menor do corpo humano. De uma experiência de internação, cirurgia, infecção hospitalar e convalescência prolongada, fiquei com outra sensação de mal-estar: eu era paciente, não um ser humano completo. Era o paciente da gastro, não o ser humano inteiro. Revisei uma tese doutoral no ano passado onde a autora traz esta inquietação à tona e o faz a partir da sua prática no campo da fisioterapia. Recusando a prática de tratar o paciente como uma pessoa lesionada em uma das partes de seu corpo, percebeu que este mesmo ser humano que ali estava tinha uma vida, relações familiares e sociais, sentimentos, auto-estima, sonhos, frustrações, medos, ansiedade e que este conjunto de variáveis interfere de maneira consciente e inconsciente no tratamento e na recuperação. Na busca de uma abordagem holística, ela percebeu que quanto mais cuidava do ser integral e não somente da parte lesionada, melhores e mais rápidos eram os resultados. Esta sua experiência relatada de forma clara, objetiva, desafiadora, fazendo-o no campo conceitual traz o relato de suas experiências na clínica. Ao sua tese notei o quanto a medicina e ciência correlatas deixaram de lado o humano para tratar do paciente. Esta é a reclamação mais constante do atendimento na rede pública de saúde. Não há quem, tendo mais idade, não sinta saudades do médico de família, aquele que atendia a todos e a tudo, mas que ao entrar no seu consultório, nos conhecia pelo nome e se lembrava das coisas que tivemos e, como que tivesse uma bola de cristal, já sabia por que ali estávamos. Tive a felicidade de ter alguns destes médicos para me atender e a meus filhos e esposa. Dois pediatras, que mais que médico eram amigos, são até hoje procurados pelos meus filhos quando se defrontam com algum problema com seus filhos. Mesmo a filha que mora na China, vira e mexe liga para o Tio Moimando (que é como eles o chamavam como crianças). Já falei aqui do dr. Luís Belintani que atendeu minha filha e possibilitou que ela nos desse a benção de um neto e uma neta e que salvou a outra de complicações seríssimas. Em outra oportunidade falei aqui do Dr. Brasilino (se não erro o nome) que se interessou por um problema de minha filha e fez dela um estudo de caso. Mas ainda tenho o Dr. João Carlos (cardio), o Lysias (Uro) e o Edson (gastro e cirurgia), o Danilo (psiquiatra). Mais que médicos, são amigos. A eles minha gratidão. Marcos Inhauser

terça-feira, 2 de março de 2010

SILÊNCIO CRIMINOSO

A antiga literatura semítica de cunho sapiencial valoriza o silêncio como expressão da sabedoria. Há um verso bíblico diz que “o falar é prata, mas o calar-se é ouro”. Tiago, mais tarde, diz que “quem refreia a sua língua sábio é”. Na história da devoção e da espiritualidade há uma forte ênfase no silêncio e na contemplação. Os mosteiros e conventos se prezavam pela preservação desta atmosfera silenciosa, porque o barulho e as palavras podem distrair. Também, e por diversas vezes, critiquei nosso guia mor pela sua verborragia, afirmando que ele fala demais, e quem fala demais dá bom dia a cavalo. Citar as vezes em que o mesmo fez isto já foi objeto de livros escritos com as pérolas da incontinência verbal do sindicalista mor. Ele seria muito mais sábio e sóbrio se refreasse a língua. Ocorre que, a mesma literatura semítica introduz um aspecto no qual o silêncio não deve prevalecer. Em um texto sacerdotal, se afirma que “quando alguma pessoa pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu, ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniqüidade.” (Lev 5:1). Segundo este preceito, calar-se diante do pecado, da injustiça, da blasfêmia é ser conivente e copartícipe do pecado. Pois isto ocorreu neste dias com o nosso guru. É de sobejo sabido que este governo tem suas afinidades ideológicas e afetivas com o regime da ilha de Fidel Castro. Lá há dissidentes políticos que são prisioneiros e o são porque nenhuma ditadura aceita a crítica, a oposição consciente e consistente. Liberdade de expressão não é o forte do regime castrista. Um desses prisioneiros fez greve de fome por oitenta dias e morreu no dia em que nosso guia estava chegando à ilha. Houve uma condenação geral por parte de governos e estados. O nosso, bem ao estilo lulista, tergiversou e acabou por condenar a greve de fome como instrumento de pressão política. Que o prisioneiro tenha morrido não é de estranhar. A violência contra a dissidência na ilha é forte e constante, haja visto o que fizeram com a bloqueira Yoani Sanchez e seu esposo. Mas que o presidente tenha se calado diante desta brutalidade foi tão absurdo quanto a desculpa dada por Raúl Castro de que os Estados Unidos eram os responsáveis por esta tragédia. O guru fala quando não deve falar, fala o que não deve falar, mas quando deve falar, fica calado. Este silêncio é criminoso. Marcos Inhauser