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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

RECOMEÇAR: A GRAÇA DE DEUS

Escrevi certa feita que deve ser chato ser Deus porque nada é novo ou diferente para Ele, nada pode maravilhá-Lo. Ele sabe de tudo, criou tudo.
Mas há outro elemento que tem me inquietado. Porque é Deus, não pode nem pôde recomeçar algo. Ele faz tudo tão certo que não há necessidade de refazer. Não precisa aprender com os erros porque, segundo definição, é impossível que erre.
Fiquei me imaginando no lugar de Deus e não gostei. Uma vida certinha, sempre fazendo tudo tão correto, certo e perfeito me cheirou algo meio cansativo, monótono, sem sentido.
Ficar a vida toda sem a possibilidade de recomeçar, sem a possibilidade de melhorar o que se fez imperfeito na primeira, de dar um toque especial.
O fato de fazer tudo certo já na primeira vez não exige que a vida tenha recomeços. Recomeçar é característica dos seres humanos e animais. A necessidade de recomeçar, de ter a esperança de que na próxima vez será melhor, é coisa tipicamente humana. Deus não precisa disto. Deus não tem esperança porque só espera quem não tem as condições de realizar o que espera que aconteça.
Deus não tem a limitação do tempo. Os entendidos e definidores de como Deus é dizem que Ele é um ser a-temporal, não sujeito às condições do tempo. Por isto o definem como eterno, sem princípio nem fim de dias. Não teve começo e não terá fim. Deus não se rege pelos meses, estações, luas, anos, séculos ou milênios.
Isto é coisa do “andar de baixo”. Nós precisamos de uma noite para descansar (Deus não descansa, ainda que a Bíblia diga que Ele descansou e mais tarde Jesus contradiz isto dizendo que Ele e o Pai trabalham até agora). Precisamos de uma noite para renovar forças e esperanças. O salmista, afirmando algo que todos gostamos de acreditar, diz: “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.
Os dias terminam com a entrada da noite e isto é recomeço. A noite termina com a entrada do dia e isto é recomeço.
Recomeçamos com as trocas das luas, com a entrada das estações, com a mudança dos meses, com a entrada de um ano novo. Precisamos destes recomeços porque vivemos de esperança. E esperamos que amanhã seja melhor, que o próximo verão seja melhor, que no próximo Natal toda a família esteja reunida, que no próximo ano seja promovido ou ganhe mais, etc e tal.
A vantagem de ser humano é esta capacidade de recomeçar, de aprender com os erros e acertos da vida. A beleza da vida é a esperança, coisa típica e maravilhosamente humana. Quem não espera, morre.
E esperar contra toda a esperança foi a grande obra de Abraão, o pai da fé. E esperar dias melhores. Não houvesse esta esperança o mundo seria muito mais violento, um verdadeiro caos. Amadurecemos porque podemos recomeçar. Crescemos porque podemos avaliar e corrigir. E podemos corrigir infinitas vezes. Porque podemos recomeçar, Jesus ensinou que devemos perdoar ao próximo setenta vezes sete. Porque podemos recomeçar, os anabatistas são contra a pena de morte, porque ela retira a capacidade de se arrepender e recomeçar.
A benção de recomeçar é graça de Deus!
Marcos Inhauser

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ALGUNS DIAS DEPOIS DO NATAL

Contrariamente à crença popular e de muitos “religiosos”, os magos não visitaram Jesus na estrebaria. O fato de que Herodes tenha pedido para matar as crianças com menos de três anos de idade é um indicativo de que, na conversa que teve com os magos, eles lhe disseram que o nascimento ocorrera há algum tempo.
No entanto, a história dos magos nos traz algumas lições para os dias subsequentes ao advento. A primeira é que eles estavam atentos aos sinais da presença de Deus na história. Perceberam que algo ocorrera e que isto tenha grande significado para eles e para a humanidade. Uma luz no céu entre tantas outras, foi suficiente para reconhecerem o sinal da ação de Deus. Esta mesma vigilância e atenção aos sinais da ação de Deus na história devem estar presentes nas nossas vidas. Como bem disse Karl Barth, o cristão dever ter em uma das mãos a Bíblia e na outra o jornal. Ler a Bíblia sem buscar no palco da história os atos de Deus é perder parte da revelação. G. Ernest Wright disse que a Bíblia, mais que Palavra de Deus, é a coleção dos “Atos de Deus”. Oscar Cullmann também chamou a atenção para a história como palco das ações divinas.
A segunda coisa a ser notada é que, apesar de estarem atentos para os sinais de Deus na história, eles foram ao palácio real na esperança de lá encontrar o Rei nascido. Ledo engano. Confundiram as bolas. Tiveram que corrigir a rota e ir ao local humilde onde Jesus morava. Na história da cristandade há uma infinita coleção de exemplos de pessoas que buscaram, ensinaram ou levaram outros a buscar Jesus não na manjedoura, não na casa simples, não no povoado humilde de Nazaré, mas na opulência dos palácios, das catedrais, dos “shows da fé”, das grandes concentrações, “Diante do Trono”, na boca das estrelas televisivas de um evangelho transformado em “gospel”, mais mercado que sacríficio, serviço e humildade.
A terceira lição que eles nos dão é que saíram de seus lugares, de suas casas, de seus povoados para ir adorar ao recém-nascido. Não há verdadeira adoração quando não há a disposição de se mover, de sair de onde se está, para, em companhia de outros (eram três), em comunhão, adorar ao Emanuel.
A quarta lição é que levaram do que de melhor tinham para ofertar. A excrecência apresentada nos templos da prosperidade trabalha o dar para receber, em uma negociata com o divino. Quando se dá, obriga-se Deus a retribuir na proporção do dado. Não se vê isto nos magos. Deram. Simplesmente deram. E deram com gratidão.
A quinta lição é que nem todos tem a verdadeira intenção de adorar ao Rei, mesmo que assim expressem. Herodes demonstrou desejo de também adorá-lo. Os magos foram alertados para a intenção perniciosa do rei. Ele queria reinar absoluto, sem conceder qualquer privilégio ao recém-nascido. Quando há pessoas que se apresentam em adoração e querem brilhar mais que o adorado, que trazem nas fachadas dos seus templos enormes fotos pessoais, que buscam estar na mídia para aparecer mais que o Rei, estão, como Herodes, mandando matar crianças menores de três anos para que seus brilhos não sejam apagados.
Marcos Inhauser

NÃO VI......

Já tinha me acontecido outras vezes. E mais uma agora. A primeira foi na final da Copa do Mundo em 2002. Estava em Lousiville em uma reunião de umas seis mil pessoas e no dia anterior eu disse que quem quisesse assistir ao Brasil ser campeão (como de fato foi) que fosse ao meu quarto do hotel que ali veria o jogo. Havia uma TV a cabo com mais de 150 canais, sendo uns 20 só para esporte. Na hora agá, rodo da esquerda para a direita, para cima e para baixo e não havia um só canal transmitindo a final da Copa do Mundo. Nos canais de esporte tinha até reprise de beisebol e nada de futebol. Subi nas tamancas e fui falar com a gerência e nada.
Em 2009 foi a vez de uma final do Campeonato Brasileiro. Estava na República Dominicana. Neste tempo já havia internet e achei que veria na televisão (transmitem até jogo de segunda divisão do futebol mexicano!) ou na internet. Fiquei a ver navios.
Agora outra vez. Estava na China, tinha três assinaturas de TV a cabo a meu dispor, mais internet. Esta começou a apresentar problemas já que cheguei, porque o governo chinês “monitora” (censura) o acesso a sites fora do país. Tinha acesso a um VPN e achei que o problema estava resolvido. Que nada!
Nos canais de esporte tinha de tudo, menos o jogo do Mundial de Clubes. Quando o Corinthians jogou contra o Al Ahly só consegui ouvir uma rádio pela internet e mesmo assim, a cada pouco cortava a ligação e eu ficava a imaginar o que estaria acontecendo.
Para a final, nada de novo. Sem transmissão, sem acesso à net. Tentei alguns sites e recebia a mensagem de que as imagens não podiam ser vistas fora do Brasil.
Sai de Beijing duas horas antes de começar a final e cheguei a Nova York umas 10 horas depois de terminado. Foi buscar acesso à internet e o único que consegui ler foi que o Curinga tinha vencido por um a zero. Nada mais! Não deu para saber quem marcou, como marcou, etc. Na segunda vez que consegui alguma coisa, li que o Cassio tinha sido eleito o melhor jogador do torneio. Imaginei que o Corinthians tinha passado sufoco para que o goleiro fosse o herói do jogo.
Na viagem de volta, o avião só tinha corintiano e uma são-paulina. Todos a rigor, com camisetas, bonés, faixas, etc. Era mano prá todo lado. Quando vi aquela gente toda, imaginei que o voo seria uma zona. Que nada. Silêncio.
Ao tocar o solo em Cumbica, houve uma explosão e o hino corintiano foi cantado com emoção. Para contrariar a fama de que corintiano é malandro, pela primeira vez em minha vida (e olha que já viajei um bocado), ouvi anunciar que um óculos de sol (de marca) havia sido encontrado no banheiro do avião e que o dono o procurasse junto aos comissários de voo.
Até uma camisa com o problemático logo verde da Fifa e autografada por todos os jogadores eu vi. Sinal dos tempos?
Marcos Inhauser

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

BIG DATA



Sem muito o que fazer fora de casa nestes dias de invernos que tem chegado aos dez graus abaixo de zero, o negócio foi ir a um museu aqui em Beijing. Fomos ao Museu da Capital, que tem a apresentação de objetos de um mesmo tema em ordem cronológica. Assim, a seção de cerâmica apresenta os mais antigos vasos de barro encontrados na área de Beijing, a evolução da técnica, até chegar à porcelana chinesa de primeiríssima qualidade. Esta concepção evolucionista está presente nas demais seções do museu (moradias, vida em sociedade, religião e suas obras de arte, etc.).
À medida que ia vendo os objetos e a evolução deles, eu tinha como pano de fundo um artigo que estava lendo na Harvard Business Review sobre informação (“Big Data”) que descreve a quantidade de informações que hoje temos à mão e como elas estão sendo direcionadas para promover os negócios, segmentando o público alvo e apresentando “oportunidades de negócios” segundo o perfil de casa usuário. Por que gastar propaganda de bebidas e cigarro comigo, se não bebo e não fumo? Melhor investir em quem fuma ou pode vir a fumar e beber. Por que gastar tempo tentando vender música rock, rap, hip-hop, axé a alguém como eu que detesto isto? Melhor me propor Bocelli, orquestras e música clássica.
E como eles sabem quais minhas preferências? Meu histórico de compras no cartão de crédito, minhas andanças pela internet, os restaurantes a que vou, etc.
Olhando as peças no museu e pensando neste mundo da informática e “data”, o que chama a atenção é a progressão geométrica do conhecimento humano. Se na antiguidade passavam-se séculos até desenvolver-se uma nova técnica cerâmica, hoje as inovações são do dia para a noite. Nunca se soube tanto sobre tanta coisa como hoje. O grande dilema da atualidade não é falta de informação, mas como selecionar o que se tem. Coloque-se no Google a palavra religião e se tem 52 milhões de resultados, Corinthians 74 mi, teologia 17 mi, Deus 248 mi, God 459 mi, Cristo 800 mi. Por aí vai.
Com esta quantidade de informação não é de se surpreender que haja tanta informação sobre a vida pessoal, sem que se tenha pedido licença ou autorizado. Fiquei assustado dia destes quando, ao pesquisar algo sobre a história da família Inhauser, descobri um site (pipl) que informa um monte de coisas a meu respeito, inclusive do tempo em que morei nos Estados Unidos e meu endereço em Chicago, onde vivi há mais de 20 anos. A privacidade foi para o espaço. Eu me senti como múmia em museu: mesmo depois de morto ainda tem gente me visitando e buscando informações sobre meu passado.
Por outro lado, fiquei pensando como é angustiante viver em tempos como o nosso. Se eu quiser saber se posso ou não comer ovo por causa do colesterol alto (622 mil artigos), vou achar um monte de informação, muitas se contradizendo, que chego à conclusão que pouco vão me ajudar a decidir, mas me ajudarão a conhecer o que se sabe sobre ovo.
A angústia está no saber e muito mais no decidir. Parece que o Coelet (pregador bíblico) é quem tinha razão: o muito saber é vaidade (Então vi toda a obra de Deus, que o homem não pode perceber, a obra que se faz debaixo do sol, por mais que trabalhe o homem para a descobrir, não a achará; e, ainda que diga o sábio que a conhece, nem por isso a poderá compreender. Ec 8:17; Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Ec 1:18).
Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

UM TRÂNSITO SEM MOTOS NEM CAMINHÕES



É a segunda vez que venho à Beijing no inverno. O daqui não é tão duro quanto os que enfrentei quando vivi em Chicago (onde cheguei a sair de casa com -22º.C e sensação de frio de -43º.C). Nesta semana tivemos temperaturas de -8º.C. No domingo, o pior dia, às 10:00 da manhã estava -5º.C e um dia cinzento e feio. O que não vi até agora (apesar de estar aqui há quinze dias) foi o sol. Em parte pelo clima, mas em grande parte por causa da poluição.
Desta, assim como das outras vezes, tive a oportunidade de ir ao centro de Beijing (estou a uns 30 kms do centro, em um distrito). Uma coisa tem me chamado a atenção: o tráfego é pesado, mas até agora, não vi congestionamento, daqueles de ficar tudo parado. Comecei a pensar e a verificar algumas coisas do tráfego aqui.
A primeira constatação que fiz é que vi pouquíssimas motos. Aqui não há esta praga que tem infernizado a vida dos motoristas das grandes cidades e tem ceifado vidas em escala de guerra. Não há os costumeiros acidentes, com interdição de pista e ambulância buzinando para atender aos acidentados com as motos.
Outra coisa rara de se ver são caminhões. Já andei pelos cinco anéis que circundam Beijing, assim como semanalmente viajo pelo Rodoanel de São Paulo. A diferença é gritante. Em São Paulo, a concentração de trucks e biarticulados, com até nove eixos, é presença constante. Até agora não vi estes monstrengos por aqui. Mesmo os caminhões “normais” são em quantidade muito inferior ao que se vê em São Paulo, Rio e outras cidades brasileiras. Parece que aqui a opção foi pelo transporte ferroviário, mais barato e menos congestionador.
A terceira coisa que é raridade é ambulância com sirena aberta. Em um esforço de memória, não consigo me lembrar de alguma vez ter ouvido alguma sirena. Também não me lembro de ter visto carro de polícia de sirene ligada. Os carros existem, a polícia existe, mas sem espalhafato.
Ainda não vi helicóptero sobrevoando a cidade para levar endinheirados de um ponto a outro, nem para noticiar sobre condições de trânsito. Os carros quebrados ou com pane seca ainda não vi, em parte porque a gasolina tem preço acessível e as pessoas não ficam rodando no bafo. Os carros, na quase totalidade, têm menos de cinco anos. Não sei o que acontecerá quando a frota envelhecer.
Os ônibus são do tipo inglês (dois andares) e não vi os bi e triarticulados. Parece que preferiram verticalizar para levar mais gente em menor espaço ocupado. Os bi e triarticulados ocupam mais metros quadrados para levar gente.
Isto aqui não é o céu. Longe disto! Se o trânsito é melhor, a poluição é assustadora. Lembro-me que aa última vez quando estávamos indo ao aeroporto e ao longe uma nuvem escura pairava sobre Beijing. Meu neto perguntou o que era aquilo e a mãe respondeu: aquilo é poluição.
Se o trânsito tem alguns aspectos positivos, o mesmo não acontece com a internet. É lenta, irritante e não dá acesso a vários sites internacionais, tais como Google, Facebook, Blogs, Yahoo, Bing. Censura mesmo!
Marcos Inhauser

terça-feira, 27 de novembro de 2012

SE A MODA PEGA



Mais uma vez estou na China juntamente com minha esposa. Minha filha estava nos esperando e fomos para sua casa. Fui tentando reconhecer coisas que havia visto nas vezes anteriores. Descobri uma linha de metrô construída em menos de três anos.
No outro dia saímos, lá pela hora do almoço, com um frio de zero grau. Na avenida perto da casa dela há um novo condomínio sendo construído e na sarjeta havia uns cem trabalhadores sentados ao relento, almoçando. Fiquei arrepiado! Não de frio, mas com a condição deles. Lembrei-me que nesta terra não há fim-de-semana, muitos trabalham sem ter um domingo ou sábado na vida. A maioria trabalha mais de doze horas por dia.
Alguém que nasceu em uma cidade do interior e quer trabalhar em outra onde haja mais oportunidades de emprego e melhores salários, precisa ter um “passaporte interno” com a autorização para trabalhar fora de sua cidade. Se vai sem isto, é ilegal e não tem direito a escola para seus filhos, atenção à saúde, etc.
A grande maioria das empregadas domésticas precisa trazer de casa a sua comida, pois não podem comer onde trabalham. Transporte urbano é bicicleta, mesmo com frio de congelar! Vale refeição, vale transporte, vale-qualquer-coisa não existem por aqui.
Ao regressar à casa abri a internet para ter notícias do Brasil. Deparo-me com uma notícia estarrecedora: um presidiário que tinha por obrigação limpar os banheiros da prisão entrou com uma ação na Justiça do Trabalho reclamando salário, INSS, FGTS e reparação de R$ 100.00,00 por danos morais. Ele ganhou a sentença. Só não levou o pedido de danos morais. O Estado foi condenado a pagar. E vai pagar com o meu, o seu e o nosso dinheiro, arrancado a fórceps dos nossos bolsos.
O agraciado condenado vai pagar as refeições que comeu às nossas custas? E vai também ter redução da pena, proporcional aos dias de trabalho realizado? Vai pagar o custo da sua estadia na prisão? Vai devolver os danos que provocou a alguém, pelo que foi sentenciado?
Certa feita em dia de intensa chuva, passei em frente a um hospital e vi uma mãe com uma criança no colo e mais duas grudadas a ela tentando escapar da chuva. Era um domingo à tarde e imaginei que aquela mulher estava tentando voltar à casa depois de levar um dos filhos para ser atendido. Voltei e ofereci carona. No carro a minha suspeita se confirmou. Mais: soube que o marido estava preso pela quarta vez e que ela preferia vê-lo preso. Perguntei por que. Ela me disse que solto não trazia nada para casa e que preso ela tinha direito a uma ajuda do Estado que dava para “tocar a vida”.
Os endinheirados agora sentenciados pelo STF vão cobrir as despesas da “estadia”? Ou, além de terem “metido a mão no seu, no meu e nosso dinheiro, ainda vão comer, beber e ficar o dia inteiro à toa, às nossas custas? Depois vem o Ministro da Justiça que prefere morre a cumprir uma sentença em cadeia brasileira. Justamente ele, que é o responsável pelo caos!
Algo está errado na China e no Brasil.
Marcos Inhauser

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

DÁ PARA EXPLICAR?

Minha esposa e eu viemos aos Estados Unidos para participar como preletores em uma Conferência da denominação à qual pertencemos.  Fomos hospedados por um casal sem filhos. A certa altura da conversa eles quiseram saber mais sobre o Brasil e disseram que tinham informações de que a economia ia bem no Brasil.
Já ouvi isto outras vezes e sempre fiquei internamente irritado com os dados que são passados para fora do Brasil e como os números mentem. Brinquei dizendo que os números eram bons, mas que, na hora de comprar a comida, eles não refletiam o que o povo percebia.
Disto entramos na questão da comparação dos impostos no Brasil e nos Estados Unidos. Contei a eles que uma lata de Coca Cola paga 45% de impostos e eles tiveram dificuldades em acreditar. Quando disse que o brasileiro trabalha quatro meses e meio só para pagar impostos, eles me perguntaram como o brasileiro conseguia sobreviver.
A pergunta seguinte era inevitável: quanto custa a gasolina no Brasil. Fiz um cálculo rápido convertendo galões a litro e multiplicando pelo preço médio da gasolina. Cheguei ao cálculo de US$ 5,09. Eles estavam pagando US$ 3,54 pelo mesmo galão. Quando falei quanto custava o carro que eles tinham no Brasil, levaram um susto. Disseram que com este dinheiro comprariam dois carros.
A conversa ganhou contornos ainda mais assombrosos quando falei que os juros de financiamento no cartão de crédito eram da ordem de 14%. A esposa me disse: você está confundindo. Deve estar querendo dizer juros anuais e não mensais. Reafirmei que eram mensais. Eles não acreditavam no que ouviam. Para eles, mesmo um juro de 14% ao ano era absurdo.
Foi quando me contaram que haviam acabado de comprar a casa que estavam morando e que financiaram a 1,9% ao ano e que haviam comprado um novo carro com juros anuais de 1,6%. Retruquei dizendo que os juros de financiamento de casa no Brasil giravam ao redor de 10 a 12% anuais.
Eu percebia que estava passando por mentiroso ou exagerado. Comecei a mostrar algumas coisas que havíamos visto o preço em algumas lojas nos Estados Unidos e quanto as mesmas coisas custavam no Brasil. Em um item o preço brasileiro estava multiplicado por dez. Outra gritante diferença era o preço de um McDonald. Perfumes, remédios, pedágios, estacionamentos, tinham diferenças de 300 a 1000%.
Com tão altos impostos e preços tão elevados, qual o retorno que vocês tem do imposto pago, me perguntaram. Eu disse que era mínimo. A saúde pública é um caos, a educação é péssima, a segurança pública está em crise e policiais são mortos todos os dias, os nossos deputados e senadores tem um dos maiores salários do mundo, etc.
A esta altura eu tinha na mente um cântico de Victor Heredia, “Sobreviviendo”:  Me perguntaram como vivia,/ me perguntaram / 'sobrevivendo' disse, 'sobrevivendo' / Tenho um poema escrito mais de mil vezes / Nele repito que enquanto alguém / Proponha morte sobre esta terra / E se fabriquem armas para a guerra / Eu pisarei esses campos sobrevivendo / Todos ante ao perigo, sobrevivendo / Tristes e errantes homens, sobrevivendo.”
Marcos Inhauser

terça-feira, 13 de novembro de 2012

SINAIS DE ESPERANÇA?


Não tenho vocação para Poliana (a famosa protagonista da obra de Eleanor H. Porter que via tudo “cor de rosa”). Estou mais para o cético que duvida de tudo, no que pese o fato de ser uma pessoa de fé. Até no campo da fé tenho minhas dúvidas e duvido das teologias que tem amplo apoio popular, porque, como aprendi com Taleb (A Lógica do Cisne Negro), o senso comum e as verdades maciçamente aderidas tem grande chance de ser erro.
Ademais, como colunista (não sei se sou colunista por ser crítico ou se critico por ser colunista – uma questão shakespeariana), aguço meus olhos e senso crítico para, neste espaço, questionar certos senso comuns e verdades palacianas. Tenho uma forte influência do Foucault, pois creio que a verdade é a versão dos vitoriosos. A dos perdedores é a sub-versão. Talvez por isto eu admire e creia na Bíblia, pois é a memória histórica dos vencidos, dos pobres, da periferia.
Devo dizer que nestes dias ando meio de ressaca neste meu ceticismo. Há uma série de coisas que me fazem crer que algo novo anda acontecendo. Estou com o profeta Isaías quando diz: “Eis que estou a fazer uma coisa nova na terra, que logo vai acontecer, e, de repente, vocês a verão. Prepararei um caminho no deserto e farei com que estradas passem em terras secas” (Is 43:19).
Digo isto por uma série de acontecimentos que se deram nestes tempos e que, para mim, são sinais alentadores.
Um deles (já mencionado por mim neste espaço) é o julgamento do Mensalão e nesta semana a condenação do Dirceu, Genoíno e Delúbio. Como a grande maioria dos brasileiros, tinha meus receios de que a coisa acabaria em pizza. Ao ver a atuação do Toffoli e Lewandovski, temi pelo pior. Depois de salutares bate-bocas e até a saída do plenário do ministro revisor (o que evidencia, como bem disse o Ayres Brito, que não há conchavos ou acertos por baixo do pano), tem-se a condenação de um modelo de fazer política. Como bem lembrou um dos ministros (que não me recordo quem foi), o esquema quadrilheiro inviabilizava um dos poderes da República ao cooptar, mediante pagamentos, o livre exercício do legislativo. Aliado ao fato de que a cúpula do PT tem se dedicado a criticar o STJ e a mídia (para alguns, o quarto poder) percebe-se a vocação totalitária desta casta petista. Só o Executivo comandado por eles é que é legítimo. Com o perdão do trocadilho, não era Genuíno, era Genoíno!
As virgens impolutas da ética política (nos tempos de oposição) se mostraram as prostitutas babilônicas nos tempos de reinação (no sentido ambíguo do termo): reinar = governar e reinar = brincadeira infantil em que se desafiam deliberadamente regras de comportamento estabelecidas ou certos limites impostos; travessura; traquinice.
Tal como alguns salmistas, eu me alegro com a derrota dos opressores e corruptos. Vou soltar rojão quando vir esta gente atrás das grades, porque meteram a mão no meu e no nosso dinheiro.
Marcos Inhauser

SHOW DA FÉ


Recebi o seguinte artigo do Rev. Marcos Kopeska Paraizo: “Não consigo entender os reducionismos a partir da terminologia que a “pós modernidade gospel” adotou para “espiritualizar”. Não consigo quando perguntam: “E aí mano! Vai no show do ........ (cantor gospel famoso). O preço do ingresso está salgado, mas é porque que ele está no auge da unção.”   Não entendo alguns pastores: “Está mais fácil para contratar o testemunho do .......(estrela pop que se converteu ao cristianismo) , afinal já ficou muito conhecido e já está em queda. Mas ainda dá arrepios quando o ouvimos.” Ou ainda: “Se garantirmos a venda  de 300 CD´s do cantor ...... ele faz um desconto de 20% no cachê e ainda dá o seu testemunho de conversão e faz apelo.”  
Não há diferença entre o mercado secular do entretenimento e o novo “mercado cristão”. Basta comparar a cultura dos resultados lucrativos do mercado da música secular e veremos a decadência cultural a que nos submetemos. É fato que dos anos noventa para cá não tivemos mais gente como Djavan, Chico Buarque, Gal Costa, Renato Teixeira, etc. Eram poesias que conjugavam melodia, emoções, sentimentos e histórias. Obras dos anos setenta e oitenta que se eternizaram com suas métricas elegantes e suas mensagens inteligentes.
A “anticultura” determinou que as gravadoras deveriam investir em “Tchá tchá tchá”, “Ré te te” ou “Créu, creu, créuuuu...”, para lucrar com a exploração do insaciável apetite por futilidades da grande massa não pensante da nação. Por sua vez, o meio evangélico entrou pelo no pragmatismo, explorando os mais recentes veios da Prosperidade e do Triunfalismo. Não é de hoje que vivemos de manias. Lembro-me que há cerca de vinte anos os cânticos em alta eram os que proclamavam batalha espiritual. Cantava-se em todos os cultos sobre general, marcha, escudo e bandeira. Depois fomos tomados pela mania do “vento” e só se cantava sobre vento do Espírito. Hoje estamos a “era das águas” e não temos um culto de domingo em que não se cante sobre águas, chuva, rios, ondas ... Fomos perdendo a criatividade. Nossa musicalidade é refém das ondas que vêm e que vão sem deixar saudade.
É neste circuito que surgem os mega shows da fé. Mas o que é adoração? O que é unção? O que é fé? O que um adorador como Davi, que compôs lindos salmos sobre os atributos de Deus, pensaria sobre este mercado efervescente e afoito por cifra$? O que Paulo, o apóstolo que tombou sua vida pela expansão do cristianismo, pensaria sobre os conceitos de unção que vão desde tremeliques e histerismos, até quedas e desmaios. O que os mártires pensariam sobre os rasos conceitos de fé desta geração de líderes que prefere entreter bodes a alimentar ovelhas?
A fé não é show de poder ou carismas pessoais, mas o conjunto de convicções que nos faz viver com determinação o evangelho que abraçamos.  Penso no pastor M.Z. (nome preservado por razões de segurança); no meu amigo pastor queniano P.M. que hoje vive no Chifre da África sob constante risco de vida; na missionária Nazareth Divino, hoje morando com Cristo, mas que sofreu espancamentos e apedrejamentos por pregar a salvação em Cristo nos países fechados ao cristianismo; no Paulo Cappelletti pregando dignidade e transformação a prostitutas, ladrões e travestis nos becos da noite paulistana. Estes realmente fazem, em humilde silêncio, o show da abnegação, porque descobriram sim o verdadeiro significado da fé. Anônimos aos homens, aplaudidos nos céus. A este show eu quero assistir. Este show eu aplaudo. É o show da fé.”

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

LAVAREMOS A ALMA?


Há uma expectativa acima da média no povo brasileiro com relação ao desenvolvimento e desenlace do julgamento dos réus no Mensalão. Havia a generalizada descrença de que houvesse a condenação generalizada dos réus.
Há que se reconhecer os trabalhos do Ministério Público e Polícia Federal que levantaram todas as falcatruas cometidas pelos que usaram o mandato para driblar e forjar decisões que interessavam a uma pequena parcela de um partido político. Também deve-se louvar o trabalho da Procuradoria Geral da República ao apresentar as denúncias, fazendo-o de forma a ver todas as acusações corroboradas pelos ministros do STF.
Mais ainda: a forma como o julgamentos dos réus se deu, com a possibilidade de acompanhamento via televisão e sites da internet. Todos pudemos acompanhar todas as votações, bem assim as divergências e argumentações havidas.
Há, no entanto, que se ressaltar que a participação do ministro Toffoli se deu sob a suspeita ética, devido às suas atividades pregressas como advogado do PT e assessor do ex-ministro José Dirceu. Mais que isto, pesa sobre ele alguns processos e acusações ainda não devidamente esclarecidos. No desenvolvimento do julgamento, ao analisar-se a sua participação, nota-se nele uma tendência em inocentar os acusados, especialmente os mais próximos do PT. Ele, que havia dito que se manteria imparcial, não o provou na prática, segundo minha ótica.
Por outro lado, a participação do ministro Levandowski. Ficou para mim a motivação que lhe moveu, qual seja, a de divergir do ministro relator. Ele quis ser o revisor e em quase todas as suas participações reviu o parecer do relator. As poucas vezes em que concordou com o relator, ministro Barbosa, foi na sua maioria para inocentar.
Mais estranho em todo o processo foi a mudança do voto de Levandowski, provocando o empate nas votações referentes ao deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), o ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas. Foram assim beneficiados pelo empate.
A existência de empate, pela falta de um ministro na composição normal do STF, em número de onze, o que impede o empate, levou o STF a discutir sobre a necessidade de um “voto minerva” a ser dado pelo presidente. No momento em que escrevo esta coluna, o assunto, depois de discussão no STF, assentou-se aplicação do princípio do “na dúvida, pró réu”, ou no latim “in dubio pro reo”.
Com isto, nos casos em que houve empate, haverá absolvição.
Outro dado discutido é a participação dos que inocentaram na votação das penas e da dosimetria. Isto é lógico: quem absolveu ou inocentou, não tem como votar as penas a quem ele crê que não é culpado.
Mas o que me “me enerva” (para usar o trocadilho do ministro Ayres Brito) é que o Toffoli ainda queira votar. Parece que lhe falta um mínimo de adequação. Ele não só inocentou meio mundo como agora quer aplicar penas segundo a sua ótica absolutória.
Para mim, fica um trocadilho neste processo todo: “in delubio, pro reo”. Sendo assim, a alma será lavada pela metade.
Marcos Inhauser

terça-feira, 16 de outubro de 2012

NÃO ME DEIXE CANSAR

Estávamos reunidos em culto na casa de uma pessoa. O ambiente era pesado porque a filha do casal que nos recebia estava na UTI do hospital. Usuária de drogas, ela havia se entregado há alguns anos a todas elas, mais álcool.
Muitas vezes vimos a mãe chorando, pedindo que orássemos pela filha, que ela fosse liberta das drogas, mas parece que nada resolvia. A cada dia ela ia se definhando e com ela definhava a mãe a o pai.
Naquela semana a situação chegou ao limite extremo. A filha estava morrendo. E nesta situação estávamos ali em culto e oração. Tínhamos a notícia de que a moça estava com falência dos dois rins e que passaria por hemodiálise, mas sem garantia de ela pudesse sobreviver.
A mãe, quieta e chorosa, estava arrasada. Tomei a coragem de perguntar a ela como se sentia e como havia aguentado tanto tempo a situação de ter uma filha que desaparecia e que quando voltava, era um trapo de gente.
Ela, de forma calma, disse mais ou menos o seguinte: “Nestes anos todos eu só tinha uma oração que eu fazia e faço. Pedia a Deus que não deixasse eu me cansar da minha filha. Ela aparecia a qualquer hora do dia ou da noite, sob chuva ou sol, sempre baleada pelas drogas. Eu a recebia, cuidava e amava. Ouvia as promessas que ela me fazia e me perguntava se dava para acreditar. Logo depois ela ia outra vez para a rua e voltava só Deus sabe quando. Eu ficava orando e pedindo a Deus que eu não me cansasse da minha filha. Eu hoje peço a Deus que a livre desta situação. Se ela sair desta e precisar fazer hemodiálise para sempre, e se meu rim for compatível, vou doar um rim para ela.”
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Uma mãe disposta a dar parte de si para uma filha que jogou a sua vida fora, que estava nas últimas pelas lambanças que fez e uma mãe pedindo que ela vivesse e que seu rim fosse compatível para poder doar a ela.
Um misto de irritação, desconforto e incredulidade caíram sobre mim.
Oramos pela moça, mas eu não acreditava que ela pudesse escapar. Terminado o culto fui para casa e não conseguia dormir, pensando naquela oração e na disposição de doação. Foi quando um pensamento me veio forte (os mais espiritualizados diriam que Deus me falou): era a demonstração concreta da graça divina através de uma mãe para com uma filha que não merecia nada, depois de tudo o que havia feito.
Hoje eu faço a mesma oração. Há algumas pessoas que estou pedindo a Deus que eu não me canse delas, no que pesem o fato de serem murmuradoras, pessimistas, se passarem por vítimas, fazerem de uma vírgula uma novela, carentes afetivos. Pessoas que cansam, folgadas, espaçosas, que não dão o direito ao outro de falar, mas falam pelos cotovelos, interrompem, inconvenientes, repetitivas, egoístas.
Tomei a oração desta mãe como lema: Deus, não me deixe cansar destas pessoas doentes.
Marcos Inhauser