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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

NÃO SE DISCUTE?


Recebi do meu amigo Rev. Marcos Kopeska, o seguinte texto que reproduzo na íntegra: “Por muitos anos ouvi o jargão: ´religião, política e futebol não se discute.´ Acontece que por não discutirmos religião deixamos uma lacuna enorme de omissão numa sociedade tão carente de orientação espiritual. Esta vacuidade passou a ser preenchida por crendices cegas com o nome de devoção, manias e histerias espiritualistas com o nome de avivamento, religiões que aparecem e desaparecem com nome de evangelização, mercenários da fé que adoram resultados e cifras com o nome de apóstolos e pedófilos embebidos de fantasias com o nome de sacerdotes.
Quando deixamos de discutir deixamos de refletir. Henri Paincore, filósofo, dizia: “Duvidar de tudo ou crer em tudo. São duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas, de refletir.” Não discutir é cômodo, mas é trágico.
Dizem que discutir religião leva as pessoas à intolerância e fanatismo. Discordo! A falta de reflexão aberta leva ao ostracismo e o ostracismo ao radicalismo. E discutir política? Nem me fale! Por falta de discussões amplas com as bases é que continuamos a eleger os mesmos “ratos do Congresso” que a cada mês nos surpreendem com novos escândalos, que pagam toda a dívida externa e emprestam para o FMI às custas da maior carga tributária já imposta, que dão uma nova roupagem ao velho e vergonhoso passado a cada quatro anos.
Não discutir política leva a sociedade a crer na mídia tendenciosa e achar que os projetos assistencialistas eleitoreiros são prioritários, enquanto nos hospitais faltam leitos e médicos. Por não discutirmos política a massa é omissa e aceita o ópio do BBB, carnaval; e espera pelo bolsa família que os brasileiros que trabalham pagam com seus suados impostos.
E discutir futebol? Ah sim! Temos 180 milhões de técnicos falando das decepções que os mega contratos trouxeram. Temos 180 milhões de administradores preocupadíssimos com os atrasos nos cronogramas de construção e reforma dos estágios para a Copa. Acontece que poucos destes 180 milhões sabem que este atraso está custando próximo a 6 bilhões de reais, quase o triplo dos R$ 1,95 bilhão, estimativa quando da candidatura do Brasil junto a Fifa.
Nunca antes foi tão importante discutir religião, política e futebol. Não se esqueça: O verdadeiro cristianismo passa pelo viés da cidadania.” (Marcos Kopeska)
Assino o que ele diz. E porque me sobra um pouco de espaço, acrescento que o cristianismo brasileiro viveu e vive uma marginalização alienante, onde temas corriqueiros são proibidos. Áreas onde a mensagem evangelizadora precisa dar sua palavra, a igreja se cala, como é o caso da sexualidade, do modelo econômico, dos salários, dos direitos humanos, da corrupção, etc. Vamos trabalhar estes temas!
 Marcos Inhauser

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

FÁCIL, SUPERFICIAL E RÁPIDO


Quero compartilhar uma constatação que faço, depois de muitos anos dando aulas. Tenho mais de 35 anos como professor em vários níveis e em diferentes locais. Como trabalho com uma área que envolve abstração (conceitos teológicos e filosóficos), venho percebendo, ao longo dos anos, uma acentuada deterioração na capacidade dos alunos em conseguir trabalhar conceitos e certa aversão pelo aprofundamento de temas.
Expressão como “isto é baboseira”, “estudar estas coisas é perda de tempo”, “o que eu ganho sabendo isto”, “estou cansado de teologia, quero vida cristã”, “não preciso de teologia, preciso de poder para expulsar demônios e curar”, “de que adianta um sermão bem estudado se a igreja não enche de gente?”, “para encher a igreja de gente não é necessário saber teologia” são por mim ouvidas com frequência cada vez maior.
Confesso que me arrepiam estas afirmações (e outras mais que não elenquei por falta de espaço). Estamos vivendo, não só no campo teológico, mas em todas as áreas, um processo de superficialização do saber. Cada vez mais sabemos menos sobre menos coisas. O que interessa é o fácil, o intuitivo, aquilo que dá para fazer sem precisar ler nenhum manual de instrução. Os celulares, smaRtphones, tablets, Ipods e Ipads são os queridinhos porque podem ser usados sem grandes conhecimentos. É tudo intuitivo e mesmo uma criança pega e em poucos minutos já está sabendo as funções básicas.
Da mesma forma devem ser os livros didáticos: intuitivos. Os cursinhos preparatórios para concursos e vestibulares, no mais das vezes, ensinam o “pulo do gato” na hora de responder. Os cursos precisam formar em menos tempo. Querem uma graduação em dois anos ou menos. O que interessa é o diploma na parede e no currículo. O saber, isto é outra coisa.
A predileção pelo fácil, superficial e rápido passou a ser a característica destes tempos. Tudo tem que ser intuitivo, sem trabalho. O arroz que você cozinha dentro de um saquinho e que não queima, fica molinho e soltinho, mesmo sem saber cozinhar. A lasanha que é só colocar no micro-ondas. A pipoca que não suja panela com óleo da fritura. Verduras e legumes que já vêm cortados. Carne que se compra temperada. Frango assado pronto. Jornais que só tem os titulares (quem tem tempo para ler a notícia toda?). Os feeds de notícias estão aí para provar isto.
Gasta-se mais tempo nos games que nos processos de aprendizado. Livrarias se fecham, mas lojas de jogos se proliferam. Os livros perderam espaço para os aparelhos eletrônicos. O saber aprofundado vai sendo substituído pelas soluções mágicas dos avatares. Há muita tinta gasta com fofocas de celebridades. Ibope para BBB é exemplo desta opção pelo fácil, superficial e rápido: para ganhar um milhão e meio em poucos dias sem fazer nada, vale qualquer coisa. Para aumentar o Ibope vale até a simulação de um estupro, providencialmente ocorrido ou marketeiramente planejado.
Há horas que bate uma desesperança tão grande!
Marcos Inhauser

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ERRAR NA HORA ERRADA


Se somos todos imperfeitos, todos cometemos erros. Se todos cometemos erros por natureza imperfeita, há um direito ao erro inerente ao fato de sermos humanos. Ninguém escapa a isto: erramos! E contamos com a compreensão dos outros para não nos crucificar pelos nossos erros, mesmo porque, como já disse o apóstolo Paulo “se alguém pensa estar em pé, cuide para que não caia”. Hoje são complacentes com meus erros, amanhã eu retribuo com a minha complacência.
Já houve quem disse que “o maior problema do homem não são os erros que comete, mas o seu desejo de ser perfeito” (Norberto R. Keppe). Nem mesmo os gênios escapam ao erro. Assim foi com Salvador Dali e Walt Disney que decidiram fazer juntos um filme que nunca saiu e que deu enorme prejuízo. O nome dele seria Destino e só foi finalizado em 2003.
No entanto, esta semana me chamaram a atenção erros cometidos na hora errada. Não que haja hora certa para errar, mas há horas em que errar se torna mais grave. Refiro-me ao erro do piloto do navio Costa Concórdia que aproximou-se em demasia da costa e bateu em rochas submersas, causando mais de uma dezena de vítimas fatais e um prejuízo bilionário. Ele tinha o direito de errar e porque erraria, havia uma quantidade de aparatos eletrônicos, radares e cartas náuticas, para garantir que o possível erro fosse minimizado. A pergunta que fica é: como um navio com todos os recursos e tecnologia pode meter-se em tal encrenca sem que alarmes ou dispositivos de correção fossem disparados?
A outra história é a do coração que estava sendo transportado pela equipe médica para que o mesmo fosse usado em um transplante e o carrinho bate no pé do carregador e o coração cai fora da caixa onde estava acondicionado. Para azar maior do infeliz, havia a televisão para filmar o seu “desastre”.
Estes dois fatos me fizeram recordar do acidente do Airbus da Air France. Um piloto experiente decide errar na errada e entrar onde não podia: decide que não haveria problemas em avançar em meio às nuvens carregadas que estavam à frente. Deu no que deu. Como um piloto com tal experiência comete um erro tão primário em um momento tão crucial? Como uma pequena peça, o Pitot, decide falhar na hora em que mais se precisava dela?  O mesmo se pode perguntar do acidente da Gol no choque com o jato executivo.
Não há nenhum seguro de que alguém não vai errar na hora agá. Um dos melhores jogadores da Itália na Copa de 1994, o Roberto Baggio, falhou. O pai que colocou o nome dele no seu filho e este veio jogar na Copinha este ano, na hora de bater o pênalti, também falhou.
O prefeito tampão também errou, e várias vezes, quando se esperava que acertasse. Errou na votação do aumento de salários dos vereadores. Errou nas justificativas que deu. Errou ao convidar o Villagra para participar do seu governo. Errou ao afirmar que os vereadores são corresponsáveis no sucesso ou fracasso do executivo, não levando em conta a separação dos poderes. Só que este erra a toda hora e não só nas horas erradas.
Marcos Inhauser

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TEMPLO À VIDA


Por nove dias frequentei o PS São José, por causa da internação de meu pai. Passei ali muitas horas, nos mais variados horários e até de madrugada fiquei ali em vigília. Outras tantas vezes levei minha mãe e a esperei durante o tempo que ela quis e suas forças aguentaram.
Não posso calar-me diante do que ali vi, vivi e presenciei. A primeira foi a forma como meu pai foi recebido e atendido. Imediatamente acolhido, em poucos minutos fui chamado para dar dados da situação da saúde dele. Em meia hora me comunicaram que ele ficaria para observação e alguns exames. Eu o acompanhei à enfermaria e vi dois enfermeiros “dando um jeito em uma cama”, colocando na cabeceira alguns apoios de rolo de papel, porque ela estava quebrada. Ouvi um dizer para o outro: “nós aqui sem camas decentes e o doutor na Oscar Freire gastando os seiscentos milhões!”. Aquela foi a cama destinada a meu pai e em nada ficou devendo às outras que ali estavam.
Comecei a perceber a forma carinhosa, atenciosa, competente e humana com que enfermeiros/as e médicos/as atendiam a todos indistintamente. Todas as vezes em que pedi a posição sobre a saúde do meu pai, nunca me esconderam nada, antes, de forma clara me indicavam a gravidade do caso. Na noite em que seu quadro se agravou, me avisaram do ocorrido.
Cuidaram do meu pai com dignidade, profissionalismo, competência e dedicação. Da parte dos médicos vi a o esforço para recuperá-lo. Quando pediram uma vaga no Ouro Verde para transferi-lo pedi a Deus que isto não ocorresse. Vi o cuidado deles em deixar meu pai penteado, mesmo que estivesse inconsciente.
Vi como eles atendiam e cuidavam dos demais. Uma pessoa ao lado xingava e ofendia as enfermeiras. Eu estava ficando irritado. A enfermeira veio para dar a ele remédio e o chamou de “meu amor” e aplicou a injeção com o devido cuidado para que não o machucasse. Um final de tarde entraram uma mulher surtada e um garoto de treze anos drogado. Os dois deram o maior escândalo. A mulher precisou de cinco homens para contê-la. O garoto também precisou ser contido. Eles o fizeram com cuidado e humanidade e em nenhum momento vi irritação ou violência da parte dos funcionários/as e enfermeiros/as.
Em uma das vezes fiquei a pensar que o PS São José é um Templo à Vida: sacerdotes e sacerdotisas, todos vocacionados, que são buscados por quem precisa da benção da saúde e eles, no exercício de suas vocações e com auxílio dos recursos, abençoam os que ali estão. Há na enfermaria um altar no centro, onde estão estes sacerdotes e sacerdotisas da vida ministrando aos enfermos.
Meu pai faleceu nas mãos destes sacerdotes e a ele somos gratos (minha mãe, filhos, noras, netos/as, bisnetos/as). Ao PS São José o nosso agradecimento e reconhecimento de que, em meio às agruras, dificuldades, carências e displicências do poder público, cumprem com sua vocação de abençoar aos enfermos.
O PS São José é um Templo à Vida.
Marcos Inhauser

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

SE ELE PUDESSE ESCREVER AO SAMU


Meu pai vem enfrentando problemas de saúde há algum tempo. No dia 26 de dezembro o quadro se agravou e decidi que o levaria ao médico, mas ele não estava em condições de ir no meu carro, debilitado que estava. Decidi chamar o SAMU. Liguei a primeira vez e deu mensagem para que ligasse mais tarde, fato que se repetiu mais três vezes. Comecei a me angustiar e ficar irritado. Como pode um serviço de emergência não atender? Achei que era porque estava ligando de celular e também achei que seria um absurdo se não aceitassem ligações de celular. Tentei mais uma vez e fui atendido. E aí começaram as minhas surpresas.
A primeira foi o atendimento inicial. Expliquei o quadro do meu pai e disse que não se tratava de uma urgência. Fui transferido para conversar com uma médica quem também me atendeu de forma exemplar. Novamente expliquei que não se tratava de urgência e que esperaria até que pudessem me atender. Preparei-me para uma longa espera. Trinta e cinco minutos mais tarde a ambulância chegou. E nova surpresa!
Se meu pai pudesse falar, sei que ele diria mais ou menos o seguinte: “nasci e cresci em meio a alemães e me casei com uma alemã. Frequentei igreja alemã. Aprendi que anjos eram brancos, vestidos de branco e com asas. Quando a porta da ambulância se abriu desceu um anjo que não era branco. Aliás, uma anja. Linda, negra e extremamente cuidadosa. Logo me ajudou a ir para a maca e me mediu a pressão, o pulso, a glicemia e começou a conversar comigo. Depois ligou avisando um médico de que eu chegaria. Ela me disse que eu iria para o Pronto Socorro e que de lá, depois de uma avaliação, me diriam o que fariam comigo. Este anjo não tinha asas. Tinha rodas e um motorista, também anjo. Minhas experiências anteriores com ambulâncias é que é uma viagem sacolejante, barulhenta por causa da sirene ligada, cheia de freadas e arrancadas. Este anjo motorista não era assim. Mais parecia que estava transportando ovos e que tomava todo o cuidado para não quebrá-los. Pela primeira vez me senti conduzido como se fosse um rei, assessorado por uma anja. Vi meu filho perguntando o nome deles: o anho se chama Claudecir e a anja Veridiana. Não vou mais vê-los. Meu quadro se agravou muito, perdi a consciência e os médicos dizem que sou paciente terminal. Mas antes que isto aconteça, quero deixar minha gratidão a estes anjos e meus parabéns ao SAMU pelo excelente trabalho que fazem. Milton Inhauser”.
Marcos Inhauser