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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O NOVO ANÊMICO


Dizem que os ditados traduzem a sabedoria popular. Eu acho que também servem para consolidar o senso comum. Um deles tem para mim mais cheiro de senso comum que de sabedoria: “ano novo, tudo novo”. Uma variação dele é “ano novo, vida nova”.

No Brasil de hoje e deste final de ano, tenho minhas restrições em pensar que a magia de cruzar a meia noite de um dia para outro seja suficiente para que coisas novas aconteçam. Bem que eu gostaria que isto acontecesse, mas a meu espírito mais cético que esperançoso me faz a advertência: “devagar com o andor porque o santo é de barro”.

Como esperar vida nova e tudo novo diante do cenário político e econômico que estamos encerrando o ano? Há mágica que dê conta de transformar tudo com a passagem do ano? É ato de fé esperar um milagre neste cenário?

Vamos lá. Não fosse um profeta Jeremias, talvez eu me encorajasse a pensar que um milagre poderia acontecer. No que pese a misericórdia de Deus, ele castigou o seu povo por causa das perversidades, mentiras, corrupção de sacerdotes e reis (e seus asseclas). A idolatria grassava solta em Israel e ele deixou que o curso da história seguisse e o povo colhesse os frutos de suas loucuras. Foram castigados pelo seus próprios atos desvairados.

É verdade que está ruim com o PT, mas será muito pior com o PMDB! Olhe para as lideranças destes dois partidos e se verá uma penca de gente acusada e sendo investigada por mal feitos na administração da res pública que eles insistem em tratar como se fosse “res própria”. Quem os colocou lá? O povo através do voto. Se eles agem indevidamente o fazem porque tiveram seus mandatos renovados, no que pese as acusações que sobre eles pesavam. Exemplos? Collor, Jader, Renan, Cunha, Lobão, Jucá, Maluf, para citar só os mais notórios. Se o povo insiste em escolher raposas para cuidar do galinheiro público, que moral tem para agora criticar e pedir a intervenção divina? Se não foram fieis no pouco, com certeza se locupletarão no muito. E é o que fizeram.

Confesso que chego às portas do novo ano com uma esperança prá lá de anêmica. Sempre brinquei com uma frase que parece que se aplica a este momento: “dias piores virão”. Não acredito que algo espetaculoso ou milagroso possa acontecer, haja visto as manobras do Temer se associando ao Cunha contra o Renan, a troca do ruim pelo péssimo na economia, a judicialização do legislativo, a legisferante atividade do STF, as infelizes declarações do Falcão no exercício da presidência do PT, as intervenções inadequadas e impróprias do ex-presidente que ainda acha que é, a demora em se tomar providências mais robustas contra o Collor, o Renan, o Lobão, o Jader, etc.

Lembro-me de uma frase de Paulo na sua carta aos Romanos, referindo-se a Abraão: “em esperança, creu contra a esperança”. Outra na mesma carta: “se espero o que vejo, isto já não é esperança”.

O que vejo, entendo e prognostico como inevitável me coloca na categoria do cético absoluto. Tenho fé em um Deus que, no que pese as nossas barbaridades, pode vir e intervir na nossa história. Como Gideão, estou em uma prova de fé. Não vejo saída, mas a fé me coloca uma nesga de esperança. Anêmica é verdade, mas é fé.

Marcos Inhauser


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

E SE FOR MENTIRA?


E tem todos os ingredientes para ser.

Não há uma só prova material de que ele tenha existido. Desde o ponto de vista da história e dos comprovantes não há nada, absolutamente nada!

Não se sabe ao certo a data do seu nascimento, o local exato em que isto se deu, onde viveu na infância, se tinha irmãos ou primos, a linhagem da mãe e do pai, não há um só documento que fale dele e que tenha sido escrito nos tempos em que supostamente viveu, ele mesmo nunca escreveu nada e quando o fez foi na areia da praia, não se tem uma relíquia dele, não se sabe exatamente onde foi crucificado e onde o sepultaram. O que dizem ser provas são facilmente refutadas pelos meios científicos.

Tem tudo para ser uma estória.

Mas se é uma estória como explicar algumas coisas? Como uma estória tão fantástica e ingênua pôde durar tanto tempo? Como a estória de um filho gerado só da mulher, nascido em condições insalubres, em local incerto, pôde ser contada durante tanto tempo? Como uma estória de uma criança de pais desconhecidos, sem vínculos com os partidos políticos e religiosos da época, com atuação na periferia de Israel, pôde ser a estória mais contada e repetida na história da humanidade?

Como uma estória destas, a partir da insignificância dos pais e do nascimento, marcado pela ausência de maiores informações sobre sua infância e adolescência, tendo surgido publicamente só aos trinta anos de idade (e até nisto há controvérsias), com um fim tão trágico como foi a crucificação, pôde ser a mais significativa estória da humanidade, ao ponto de ser divisor da história entre o antes e o depois?

Como uma estória tão simples pôde inspirar tantos compositores que escreveram mais belas músicas da humanidade, haja visto o Aleluia de Haendel e tantos outros clássicos de natal? Qual outra história foi mais encenada em palcos ao redor de todo o mundo que a do natal? Qual outra estória mudou a vida de tanta gente como a do natal? Qual outra estória produziu mais “conversões” que a do nascimento, vida e morte dele? Qual outra estória tem mobilizado tanta gente para a solidariedade, a fraternidade e ao perdão que esta estória?

Que me perdoem os que discordam de mim e de milhões que assim acreditam: para mim não é estória e sim história!

Não preciso de provas materiais e históricas para crer na realidade do natal (sem nem mesmo saber exatamente a data e local). Não preciso ver um suposto pedaço do manto, da cruz ou lágrimas colhidas por uma tal Verônica. Não preciso de um manuscrito escrito por ele ou sobre ele, redigido nos dias em que ele viveu para acreditar que ele é real. Para mim não se trata de estória, mas de fato da fé que historiciza a sua presença em mim e através de mim.

Não preciso provar a historicidade dele. Preciso viver a realidade da vida dele em mim e nos que, como eu, acreditam nele. Não tenho a obrigação de “convencer” ninguém que ele real, porque ele se encarrega disto pelo exercício da sua graça. Isto é tão forte que Agostinho disse que a graça é irresistível! Quando ele quis mostrar sua realidade a Paulo, este até do cavalo caiu!

Só afirma que o natal é estória quem nunca “caiu do cavalo” pela graça de Deus. A queda faz com que a estória vire história!

Marcos Inhauser

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A ARTE DO CINISMO


Tirei alguns dias (talvez semanas) para ler dois livros do Michel Foucault que são as últimas aulas que ele deu. Trata-se de “O governo de si e dos outros” e “A coragem da verdade” onde ela faz análise do conceito de verdade e do falar a verdade (parresia) no exercício da política na antiga Grécia, especialmente Atenas.

São leituras difíceis, seja pela complexidade do tema, pela exegese que faz dos textos citando em abundância o original grego ou pela quantidade de coisas que ele vê e extrai de onde eu, no meu quase analfabetismo, não vejo nada. Ao ler o que ele vê onde não vejo me dá um sentimento de imbecilidade.

Mas, acho que, nesta minha experiência, foi a tristeza e a dor o que mais me afetaram ao confrontar o exercício da verdade na vida pública com o exercício do cinismo e da mentira que presenciamos nas lides congressuais do Brasil.

Causou-me espécie recordar e reforçar algo que já tinha vago conhecimento de como Sócrates e os socráticos pregavam o despojamento como forma de se conhecer a verdade. Também ao ser relembrado da postura dos cínicos (os antigos e primitivos) em seu total desprendimento de qualquer título, reconhecimento social ou bens.

A certa altura ele afirma que a verdade tem quatro dimensões: a verdade minha que tenho coragem de falar para mim mesmo, porque há gente que não tem coragem, de confessar a si mesmo certas coisas que faz ou pensa. A segunda dimensão é a verdade minha que tenho coragem de contar a alguém, amigo, confidente ou terapeuta. Mais antigamente este papel de “escutador das nossas verdades” era do sacerdote e da amante. A terceira dimensão é a verdade que tenho coragem de dizer em público. A quarta é a verdade que ouço vindo dos outros e que dizem respeito a mim.

Ao ver a cara-de-pau do Cunha, Renan, Lula, Jader, Edinho, Mercadante, Dilma, e tantos outros, enredados até o pescoço com as investigações, lembro-me destas quatro facetas da verdade. Fico a pensar se eles têm a coragem de se olhar no espelho e dizer a sí mesmos o que fizeram. Duvido que contaram a seus amigos, confidentes ou advogados todas as peripécias cometidas. Duas coisas eu tenho certeza: não estão dizendo a verdade em público e nem estão aceitando a verdade que as ruas estão a gritar. Ouvir o Cunha dizer que não tem interferido em nada no processo de protelação em que se envolveu a Comissão de Ética da Câmara é vergonhoso. Vergonhoso é vê-lo apoiado por parlamentares que se intitulam como evangélicos, que o apoiam, como é o caso do campineiro, pastor da Assembleia de Deus, Paulo Freire, do Marco Feliciano e outros.

Se política na antiga Atenas tinha a parresia como alvo e prática, na brasileira é a mentira, a enganação, a fraude, a jactância (vide a gravação do Delcídio), a carteirada, a bravata. Prova cabal disto é a judicialização do processo parlamentar, uma vez que ninguém mais acredita em ninguém e se pede a arbitragem externa para que o diálogo próprio do parlamento seja realizado. Quando isto se dá, não é a negociação, mas a imposição da interpretação judicial, onde um grupo perde e outro ganha. Quando isto acontece o povo, que deveria ser o beneficiário maior do processo, acaba pagando alto custo, como são as demissões, a falta de investimento, a inflação, os pesados impostos e a possibilidade de ressurreição de um morto que devia ter sido cremado para nunca mais voltar: a CPMF.

O cinismo tem um preço é o povo é quem tem pagado.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

PÁTRIA EDUCADORA


Já mencionei aqui, mais de uma vez, a minha admiração por dois irmãos nicaraguenses, poetas e cantores, os Mejía Godoy. Dia destes estava ouvindo pela enésima vez suas músicas. Deparei-me, outra vez, com a de Terencio Acahualinca, onde ele conta a estória desta pessoa que, sendo perguntado por um burocrata sobre sua formação educacional, se saiu com este verso, aqui livremente traduzido:

Não sou leigo, nem estudado em alguma ciência,

Mas já estou pós graduado pela experiência.

Um curso de alta miséria me fez doutor.

Sou graduado em pobreza,

Mestre em desnutrição.

Que me perdoem todos os amigos

Que estão na rançosa burocracia

Com seus diplomas conseguidos em Bretanha ou gringolândia,

Ninguém pode ostentar este recorde

E esta é a pura verdade

Porque assim canta Terencio com tremenda realidade:

Não sou leigo, nem estudado em alguma ciência,

Mas já estou pós graduado pela experiência.

Um curso de alta miséria me fez doutor.

Sou graduado em pobreza,

Mestre em desnutrição.


Fosse Terencio Acahualinca brasileiro, pouca ou nenhuma mudança precisaria fazer na letra para adequá-la à sua realidade. Muito ao contrário talvez pudesse acrescentar algo como

Fiz um elementar básico,

Secundário meia boca

Sonhei com a riqueza,

Adotei a esperteza,

 tomei o caminho mais curto:

Virei político!

Graduei-me em ética pelo noticiário

Mestrado em mentira vendo declarações de senadores e deputados,

Doutorado em cinismo acompanhando CPIs.

Aluno de Calheiros, Cunha, Sarney, Delcídio e do PT

Fiz especializações no PMDB, PSDB e antigo Pefelê.

Nas artimanhas do submundo sou touro,

mas ando morrendo de medo do Moro.

Acertei a mão e ganhei uma bolada,

Mas, pelo visto, lá se vai ela com a delação premiada.

Queria entrar para história como notícia,

mas acabei nas páginas da polícia.

A cela me deu rugas

E no medo do que pudesse contar, me ofereceram fugas.

Bendito gravador:

lá se foi um senador!

Por causa do cartel:

Está se implodindo o bordel!



Marcos Inhauser


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A VERDADE ANTI-ESCRAVIDÃO

Já gastei algumas linhas trabalhando a expressão jesuânica do quarto evangelho de que “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Na última vez, disse que a expressão precisa ser analisada e entendida no seu contexto (o próprio evangelho), onde o tema da vida plena é central. Assim a libertação de que se fala é a libertação para a vida plena.
Quero trabalhar outro aspecto, agora pela via negativa: a mentira escraviza, manipula, trata o outro como incapaz de conhecer e suportar a verdade. Seja qual for o motivo para a sua existência, há da parte do mentiroso motivações manipuladora e escamoteadora. Por causa disto, tanto o mentiroso como o que é vítima dela são escravizados. O primeiro pela própria mentira que deve manter a qualquer custo, o último porque não tem acesso à verdade que liberta, mas se vê enredado nas tramas da manipulação de quem mente.
Tenho pensado nisto diante da avalanche de mentiras contadas e descobertas com a operação Lava Jato.
Ainda que a mentira possa ter dado um certo alívio a quem a contou no início e até certo prazer, o custo de mantê-la e, por fim, vê-la desmascarada, é cruel. Lembro-me de uma frase do Barusco na CPI (um dos poucos que falou neste festival de “reservo-me no direito de permanecer calado”) quando disse mais ou menos isto: num determinado perdi a tranquilidade e o sono por não saber como explicar a montanha de dinheiro que tinha”. A confissão foi alívio porque libertadora.
O imbróglio de mentiras do Cunha e as suas “explicações”, são novas mentiras para sustentar as anteriores. É um escravo das mentiras contadas. A mesma coisa se pode dizer do Delcídio e sua súbita demonstração de espírito solidário com o Cerveró. A versão contada no seu depoimento é tão esfarrapada que acabou se enredando ainda mais no cipoal da escravidão da mentira.
Com isto, quero esclarecer o seguinte paradigma: a mentira escraviza, a verdade liberta. Acrescento: toda verdade é libertadora, ainda que ela tenha seu custo e dor inicial.
Nestes dias, em uma viagem de ônibus, sentou-se ao meu lado uma jovem mãe com sua filha de ano e meio. Depois de mais de uma hora de conversa, ela me contou que, quando tinha 11 anos de idade, surpreendeu sua mãe com um homem na cama. Aquilo para ela foi terrível. Porque sabia que seu pai também não era santo, nunca falou para a mãe o que tinha visto, mas isto a matava por dentro. Há dois anos teve uma conversa com a mãe e contou o ocorrido. No dizer dela: “senti que um peso saiu de mim. Nasceu um riso nos meus lábios, voltei a viver. Eu vivia uma farsa com minha mãe simulando que tudo estava bem e não era verdade. Quando contei a ela o que eu sabia, a relação nossa melhorou e muito”. Uma verdade que a libertou!
Na sucessão de verdades que estão vindo à tona, há um processo de libertação. Creio que estamos sendo libertos de corruptos contumazes, de políticos desonestos, de governantes inescrupulosos, de gurus enfatuados, de marqueteiros manipuladores, de ex-presidentes que mentiram e continuam mentindo.
A verdade nos está libertando!!!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MORTE À DIVERSÃO

Há uma coisa em comum nos recentes ataques terroristas: todos eles atentaram contra pessoas que estavam se divertindo. Explico-me.
O avião russo que foi derrubado por uma bomba colocada no seu interior, transportava pessoas russas que haviam passado alguns dias no balneário de Sharm el-Sheik, que é um dos mais bonitos do Oriente Médio e para onde milhares de pessoas vão para descansar e se divertir.
Nos ataques recentes na cidade de Paris, três homens-bomba tentaram entrar com explosivos no estádio. A finalidade era um massacre daqueles que haviam tirado algumas horas de suas vidas para se divertir vendo uma partida de futebol. A outra investida foi contra os que estavam vendo a apresentação de rock em uma casa de espetáculos e ali tinham ido para se divertir.
O mesmo se pode dizer dos que estavam nos vários restaurantes que foram alvo dos terroristas. Há que se acrescentar que alguns deles estavam em área conhecida como boêmia, uma forma peculiar de vida voltada para o prazer.
Há nisto uma consonância com todos os fundamentalismos religiosos de todas as eras. Se há algo que é comum a todos eles é a radical condenação de todos e quaisquer tipos de diversão. Há quem condene assistir a um jogo de futebol e quem condene jogar futebol. Há os que condenam a prática de qualquer esporte. Pregadores há que dizem (e talvez ainda digam) que a televisão é o satanás dentro de casa com os chifres no telhado. Há os que condenam os que assistem a um filme no cinema, a uma peça de teatro ou coisa assemelhada, afirmando tratar-se de promiscuidade. Quando vão à praia, só podem entrar na água de roupa e nunca de maiô ou biquíni, porque são roupas do demônio.
Uma das alegadas razões dos terroristas para atacar a casa de espetáculos Bataclan é que ele era um antro de idolatria e promiscuidade. E qual a justificativa para atacar uma pizzaria ou um restaurante étnico, como foi o Petit Cambodge? Seria o prazer de uma boa comida pecado? Seria o capricho do chef no preparo dos pratos um atentado à verdadeira religião? Um pizzaiolo é funcionário de satanás?
Obcecados pela sua mente anti-hedonista, cobrem as mulheres dos pés à cabeça e até os olhos, porque ver uma mulher bonita, com um belo corpo é prazeroso e isto é obra de satanás. A verdadeira religião é a negação completa e radical de qualquer coisa que traga prazer. Li isto certa vez em um pretenso livro de ética cristã: “se você quer saber se algo é santificado ou pecaminoso, tenha a seguinte máxima: tudo o que dá prazer é pecado!” Tomar um copo de água em dia de calor dá prazer. Escovar os dentes dá prazer. Tomar um banho quando o corpo está suado, dá prazer. Ouvir o canto de um pássaro, dá prazer. São, porventura, pecados?
Fundamentalismos, seja de que origem provenham, são um risco à vida, alegria e felicidade. Roubam o prazer de viver de quem os obedece e criam mecanismos para roubar a alegria da vida dos que não se alinham com suas barbaridades teológicas. Se há fundamentalistas que matam os “infiéis”, há também os que assassinam reputações de pessoas que eles consideram ser liberais e apóstatas.
Que Deus nos livre dos fundamentalistas do lado de lá e dos que estão em nosso meio.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A VIDA E A VERDADE

Já escrevi duas colunas sobre a questão da verdade que está no quarto evangelho que é centrado na vida. Outros dois temas estão presentes: amor e verdade. O radical da palavra vida ocorre cinquenta e uma vezes no evangelho, o que nos mostra a qualidade da ocorrência da palavra.
Para os escritos joaninos a vida é a concepção central para a religião e a teologia, não somente pela intensidade da ideia, mas pelo uso de outros símbolos relacionados a ela: luz da vida, água da vida, pão da vida, vinho verdadeiro, o bom pastor, a porta, etc. A vida foi concebida pelo cristianismo como dom de Deus através de Jesus e passou a expressar-se por salvação, libertação, redenção, justificação e perdão. 
É mais que uma apresentação religiosa da ideia da vida concebida religiosamente, mas a tese de que Jesus era a vida, que era a luz dos homens, que se dá na doação dela como propósito da encarnação e conclui com a identificação da transmissão da vida como propósito do evangelho. Diferentes palavras são empregadas por João para se referir à vida.
A dimensão física da vida é expressa pela palavra psychê que denota o ser humano completo, que ocorre como objeto de entrega. De acordo com a teologia joanina, aquele que não tem a disposição de dar a própria vida não está apto para receber a vida definitiva. Somente através da entrega alguém pode alcançar a vida real. Essa entrega é um processo onde o amor é a base. Há em João um paradoxo entre vida e morte: a vida real é entrega e a morte é um meio de receber uma dimensão mais ampla da vida. Isto é particularmente verdadeiro na imagem do grão de trigo que deve morrer para produzir o fruto.
Outra palavra empregada nos escritos joaninos é zoê e as suas variações. Com ela se introduz a ideia da vida eterna, que é central na sua teologia. Ela nunca denota a vida física, mas a qualidade da vida definitiva, a vida eterna, onde a morte não está presente. Várias vezes elas são seguidas por aiônios ("vida definitiva", a "vida eterna"). Para João a vida eterna é consequência da fé em Cristo, dom de Deus. A vida eterna é o conhecimento do Deus verdadeiro e de Jesus a quem Ele enviou. A condição para receber a vida eterna é a adesão a Jesus na condição de Filho de Deus porque é o modelo daquele que deu sua vida para salvar. Receber a vida é reconhecer o amor de Deus expresso na morte de Jesus.
A vida eterna é o poder de ser ressurreto no último dia, a segurança de nunca perecer. A vida eterna é a vitória sobre a morte. Jesus pode dar vida porque Ele é vida e venceu a morte através da ressurreição e disse: "Eu vim para dar vida e dar vida em abundância". Mas, o que a vida abundante significa? No contexto Jesus estava falando acerca do bom pastor, aquele que dá sua vida pelas suas ovelhas. Em contraste a isto, os bandidos vêm para roubar, matar e destruir. A vida está colocada em oposição ao roubo, morte e destruição, sinais de violência e morte.
Logo, a verdade que liberta tem a ver com a vida plena e eterna.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

NÃO SOU FORMIGA

A formiga tem uma vida previsível, obediente e metódica. Nasce sob a égide de uma rainha que comanda o formigueiro, tem suas atribuições determinadas pela hierarquia da colônia, pois, no ninho, as tarefas são divididas entre as castas, sendo que a divisão maior é entre as fêmeas reprodutoras (rainhas) e as operárias. Estas fazem o trabalho pesado: constroem o ninho, coletam comida e água, limpam, alimentam machos, larvas e protegem o formigueiro. Em certas espécies, as formigas soldados diferem-se das operárias comuns por terem partes do corpo maiores, principalmente cabeça e mandíbulas. Há ainda as cortadeiras (coletoras de folhas).
A previsibilidade da vida na colônia se dá até nos trilhos a serem seguidos pelas formigas ao saírem da colônia e buscarem o alimento e voltarem ao ninho. As formigas não têm ideia, nem pensam, nem refletem, nem planejam, nem sonham o futuro. Não precisam decidir, nem optar por isto ou aquilo, não precisam votar e nem responder a questões difíceis. Tem abundância sem preocupações. Nascem, crescem e morrem. Não precisam estudar filosofia ou teologia!
Eu, como ser humano que sou, tenho minha vida regida pelas minhas ideias, decisões e opções, cada qual com seu custo e benefício. Penso, examino, reflito, discuto, decido, me arrependo, sonho, planejo, construo, arrebento, reconstruo. Minha vida é diferente daquela monotonia da vida no formigueiro.
Formiga não se assusta. Eu sim. Formiga não se maravilha. Eu fico maravilhado. Para as formigas pouco importa se é o PT ou a Dilma que está no governo. Elas não sentem a crise e nem tem problemas financeiros. Eu sim os tenho. Eu voto, elas não.
Graças a Deus não sou formiga, porque se o fosse ou se tivesse que levar uma vida sem sobressaltos e novidades entraria em fastídio imediatamente. Gosto dos desafios, das questões difíceis, da novidade, do sobressalto. Nunca seria contabilista ou funcionário de cartório.
Nesta caminhada de aventuras, as questões do que é verdade, do que é certo, do que é justo, sempre alimentam e fomentam ideias e conclusões. Nisto, me lembro do Locke que li há alguns anos: “Apesar de nossas palavras significarem nada mais que ideias, porém, tendo sido projetadas para significar coisas, a verdade que elas contém será apenas verbal quando representarem ideias na mente que não estão em conformidade com a realidade das coisas”. Minhas ideias serão simples ideias se não estiverem em harmonia com a realidade das coisas.
Por não ser formiga, a cada dia devo rever minhas ideias, meus planos, meus sonhos para que entrem em sintonia com a realidade das coisas. Mudar é sinal de maturidade. Formigas nascem e morrem sempre do mesmo jeito. Eu não sou formiga. Eu tenho que mudar, redefinir-me, repensar-me, reposicionar-me neste mundo. A mudança é o sinal de que houve reflexão, avaliação, análise, redefinição de convicções.
O sucesso de uma ideia não se mede pelo tempo que a mesma é válida, mas pelo nível de harmonia que tem entre o pensado e a realidade das coisas. Se a própria realidade é mutável, uma ideia imutável é sinal evidente de falta de sintonia.
Por isto detesto os conservadores. Eles estão mais para formigas que para seres humanos.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O ROTO FALANDO DO RASGADO

O noticiário político/policial brasileiro tem revelado pérolas, babaquices e uma forte dose de cinismo. O “homem de Deus” ungido que foi para ser autoridade sobre a nação na qualidade de presidente da Câmara, também foi saudado como homem de fé e mão de Deus para operar transformações neste momento delicado. O deputado Marco Feliciano se referiu ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha com uma pergunta a Deus: até quando vais proteger Saul, proteger o que rejeitastes? (fazendo uma alusão a presidenta Dilma). Marco Feliciano se referiu ainda ao deputado Cunha como amigo, “eu fiz campanha para você e te defendo onde eu vou, porque você é um grande homem de Deus”.
Este mesmo senhor que se antecipou indo à CPI onde negou que tivesse contas não declaradas no exterior, pego na mentira, acusa, vê conspiração, faz manobras, manipula e acoberta provas. O leitor de Bíblia e participante das orações no bloco dos deputados evangélicos, saudado pela igreja, a envergonha com suas mentiras e desfaçatez e a usa para lavar seu dinheiro emporcalhado.
O jornal o Globo publicou em seu editorial que o legislativo precisa atuar porque a situação de Cunha o inviabiliza para continuar à frente da Câmara.
A mesma verdade deve ser aplicada ao Renan Calheiros, porque, mesmo não tendo sido flagrado em uma mentira, tem contra si várias acusações de se beneficiar do dinheiro da Petrobrás e de ter contas pessoais pagas por um lobista, referentes ao seu envolvimento extraconjugal. A máxima também se aplica à presidente, quem, por obra e graça da sua competência econômica, fabricou as pedaladas fiscais e as replicou durante 2015.
Neste contexto se entende que as averiguações feitas pelo MP e PF nos limites mais próximos ao Lula (especificamente ao seu filho, prodígio na área de marketing esportivo), não deve ser visto e diagnosticado pelos indigitados como trama para acabar com o PT e com a herança (sic) que o chefe do clã deixou.
Há consenso nacional de que os denunciados devem ser investigados e, comprovadas as falcatruas, devem pagar pelos seus erros. Todos concordamos quando se trata de figurões.
Quando a coisa desce a escada, os mesmos que usam o editorial do Globo para disseminar a ideia de cassação do Cunha, não explicam, fingem não entender, se fazem de mudos, dão explicações cantiflinianas aos pedidos de explicações de dinheiro que lhes foi confiado. Foram ávidos ao receber e lentos (diria lesmáticos) para se explicar. Há quem, como certos deputados e ministros que, em sendo inquiridos e tendo que prestar contas dos seus atos, acham que a verborragia e a acusação dos requerentes os salvarão.
A ética reivindicada do andar superior, precisa ser vivida no âmbito pessoal. As mentiras do Cunha são tão mentiras quanto as que se conta à esposa, filhos, ovelhas ou bispos, as que coloca em relatórios ministeriais ou em contabilidades fraudadas. O certo, o verdadeiro não pode ser sinônimo de útil.

Quem pede a saída do Cunha, Renan e Dilma, deve também sair se está mentindo ou enrolando para se manter em postos ou posições que lhe tragam vantagens e benefícios. É uma questão de coerência! Caso contrário será o roto acusando o rasgado, o mentiroso exigindo a verdade.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

CONHECEREIS A VERDADE

Minha coluna sobre a “Controvérsia sobre a verdade”, escrita há três semanas, me rendeu vários e-mails de crítica e pedidos de melhor posicionamento sobre o assunto. Minha impressão é que houve eleitores que confundiram a provocação à reflexão com uma posição teológica pessoal. Terminava minha coluna com este parágrafo: “Quem afirma que Jesus é a verdade e que ele, sendo a verdade, liberta, tem em si, no bojo desta afirmação, questionamentos sérios. Se a verdade é ele, conhecer a ele é ser liberto. Mas qual dos Jesus devemos conhecer? O descrito nos evangelhos sinóticos ou na teologia joanina? Ou o Jesus das pregações paulinas? Ou o Jesus da tradição eclesiástica? O Jesus da leitura teológica, instrumentalizada com aparato crítico e exegese nas línguas originais, ou o Jesus da leitura simplista? Qual deles é a verdade?”
Afirmar que Jesus é a verdade traz questionamentos. Ei-los: se Jesus é a verdade, ele é a verdade sobre qual assunto, evento, afirmação ou relação? Dizer que ele é a verdade no sentido de que é a verdade sobre tudo é negar a essência do ser verdade. Não existe uma verdade única que sirva para todos os assuntos. Toda verdade é relativa a um tema em particular e se Jesus é a verdade, devemos definir sobre qual assunto ele é a verdade. Há uma área específica sobre a qual ele é a verdade e isto não está definido pelos que afirmam dogmaticamente ser ele a verdade. Quando ele fala que é “o caminho, a verdade e a vida” estava afirmando a especificidade deste ser verdade: “ninguém vem ao Pai senão por mim”. No entanto, ao afirmar “conhecereis a verdade e ela vos libertará”, sobre qual tema estava se referindo?
Perceba-se que ele afirma “verdade” e não “verdades”. A singularidade é fundamental. Sobre qualquer assunto há uma verdade. Em tese, não pode haver mais de uma verdade sobre um mesmo assunto. Ocorre que, um mesmo assunto comporta mais de uma verdade, cada qual se referindo a um aspecto específico do assunto, a uma fatia do salame. Exemplifico: a afirmação de que “o Brasil vive uma crise” é uma verdade. “A crise brasileira é política”: também é verdade, mas não é toda a verdade, porque ela também é fiscal, moral, ética, social, etc. Assim, há uma verdade para cada área que se considere.
Se conhecer a verdade liberta, conhecer a Jesus liberta do quê? Muitos afirmarão que ele liberta do pecado, mas concordarão que quem o conhece, continua pecando. Outros dirão que ele liberta da escravidão do pecado, mas a vida diária mostra que ainda somos escravos do pecado, porque há áreas da vida nas quais pecamos e que, por mais esforço que se faça, não conseguimos deixar de pecar. Outros afirmam que ele é a verdade sobre Deus, uma coisa impossível visto ser Deus incognoscível na sua plenitude, sendo, portanto, impossível conhece-lo por uma única afirmação verdadeira. Nós o conhecemos parcialmente por uma somatória de verdades.

Para se ter melhor compreensão deste conceito de verdade que o evangelho de João traz, temos que nos aprofundar na teologia joanina e esquecer textos fora deste universo de pensamento. Buscar respaldo em teologias outras, mesmo que bíblicas (paulina, petrina, jesuânica, apolina, sinótica, etc.) é buscar nas afirmações da Dilma toda a verdade sobre Eduardo Cunha.
Marcos Inhauser 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

COBRANÇA E TERRORISMO

Toda vez que se repassa a alguém algum valor para que ele faça algo, ou se delega poder para fazer algo ou se investe alguém de alguma autoridade com um determinado cargo, esta pessoa deve prestar contas do que faz com o valor repassado, com o poder conferido ou com a posição atribuída, mesmo que tenha sido feita por eleição.
Eu não tenho o direito de pedir relatórios financeiros ao meu vizinho se não lhe passei qualquer recurso. Agora, caso eu tenha feito a ele uma doação, em função da sua necessidade financeira, para que reformasse o telhado da casa e, passado um mês do repasse, não vejo nenhum trabalho no telhado, tenho todo o direito de pedir a ele explicações sobre o fato e até de exigir que devolva o que lhe foi passado.
Este raciocínio se aplica à esfera federal, estadual, municipal, institucional e individual. Ao pagar impostos eu o faço na esperança da contrapartida dos serviços próprios do estado. Se estes serviços não são prestados ou se se tem evidências de uso indevido dos valores repassados, o cidadão tem o direito e o dever de exigir explicações e relatórios sobre tais repasses. Aí está a Lei da Transparência a exigir dos governantes relatórios claros e disponibilizados na internet.
É verdade que no âmbito federal, estadual e municipal há alguns requisitos para que isto se dê. Exemplo disto é o Tribunal de Contas da União, do Estado ou do Município, que devem fazer a análise se tais recursos estão ou foram devidamente aplicados. Posso provocar para que se manifestem e expliquem, mas devo obedecer certos ritos.
No caso de eu repassar uma verba para uma instituição de interesse público, tenho o direito e o dever de acompanhar a aplicação de tais recursos e cobrar a responsabilidade na pessoa de quem, estatutariamente, é a responsável.
Assim está acontecendo com o caso das “pedaladas fiscais”, do dinheiro em contas secretas do Cunha, da lisura nas campanhas políticas, é o que aconteceu com a ONG Refúgio de Amparo e Promoção Urbana, de Uberlândia e com o capelão Osvaldo Palópito, que é acusado de desviar dinheiro da igreja e de uma ONG. Isto se deu também com o Instituto Atlân­­­tico. Os sócios tiveram os bens indisponibilizados por decisão da Justiça, em ação em que a prefeitura de Londrina pede a devolução de R$ 6 milhões.
Nestes casos e em outros assemelhados, pedir relatório, chamar à responsabilidade quem tem este dever, não é terror psicológico, nem ato de terrorismo, mas ação condizente com os direitos e deveres da cidadania.
O que chama a atenção nos casos citados é que, no Plano Federal se acusa o TCU de fazer julgamento político e se denigre o presidente do Tribunal; o Cunha denigre o Procurador Geral da República; o capelão denigre o contador, o vizinho diz o pedreiro pediu dinheiro adiantado e sumiu e o que sobrou não dá para fazer nada. É a conhecida tática de acusar quem pede explicações, como se isto que produzisse algum efeito. Ainda que o ministro Nardes possa ter algum rabo preso em outras operações, isto não valida o erro de quem é chamado à responsabilidade por ele. Ele, por sua vez, deve explicações naquilo que é instado a esclarecer e se não o fizer, arcará com as consequências.
Por isto, não me venham dizer que pedir investigação na CBF, BNDES, Petrobrás, Câmara, Senado, Congresso, TSE, STJ, STF e chamar para depor quem deve explicações é ato terrorista, golpe ou terceiro turno. É, sim, exercício da cidadania plena.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A CONTROVÉRSIA SOBRE A VERDADE

Há uma frase proferida por Jesus que já ouvi várias explicações e nenhuma delas me convenceu plenamente: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O problema é bastante complicado. Primeiro precisamos entender o que é verdade e isto já deu muito pano para manga, muitas páginas de livro e muitos seminários filosóficos, sem que se tenha chegado a um denominador comum.
No trato da questão da verdade há os céticos que afirmam que nada é verdadeiro ou falso, que tudo é igualmente verdadeiro e falso e que nunca se pode chegar ao conhecimento da verdade. Do outro lado do espectro estão os que pensam que, sim, se pode conhecer a verdade. Entre eles, entendo eu, está Freud, que entendia que nada é absolutamente irrelevante (tal como afirmam os céticos e os niilistas). Para ele, precisamos crer em verdades porque, caso contrário, se ela é irrelevante, deveríamos construir pontes com papelão ao invés de fazê-lo com concreto e pedras. Ele define aos que consideram a verdade como irrelevante como “anarquistas intelectuais”. Há coisas que creio como verdadeiros e construo minha vida sobre estas verdades.
Acrescente-se a posição dos relativistas: a verdade é relativa e o que é verdade para uma pessoa pode ser mentira para outra. Eles não acreditam no caráter objetivo da verdade, nem em sua natureza absoluta e imutável, uma vez que dependente do posicionamento subjetivo.
Deve-se ainda acrescentar os pragmáticos: a verdade é o que funciona. Alguns também a chamam de funcionalismo. A verdade só o é quando o que se afirma tem uma função prática e funcional.
Diante disto há ainda duas questões: o que é a verdade e o que é verdadeiro sobre uma situação especifica. Todos conhecemos a distinção entre a verdade por antagonismo com a mentira. Todos já mentimos e sabemos quando mentimos, porque faltamos com a verdade. Logo sabemos o que é a verdade. Então, a mentira é a falta de correspondência entre o que afirmo e o que faço ou creio. Por dedução lógica, se há esta correspondência, afirmo a verdade. Mas este falar honesto não me dá a credencial da verdade, porque posso falar o que penso e dizer a coisa de forma totalmente correspondente com o que faço e ainda assim não dizer a verdade. Para que a enunciação seja verdadeira, precisa haver uma correspondência entre o dizer, as palavras, o discurso e o pensamento e quem ouve, em sintonia com o que é dito, aceita o que lhe foi comunicado como sendo verdadeiro.
Ainda assim poder-se-á questionar que esta verdade é verdade para os dois ou mais pessoas envolvidas no processo. Pode-se concordar sobre a versão ou interpretação de um fato e ainda assim estar errado na interpretação.
Quem afirma que Jesus é a verdade e que ele, sendo a verdade, liberta tem em si, no bojo desta afirmação, questionamentos sérios. Se a verdade é ele, conhecer a ele é ser liberto. Mas qual dos Jesus devemos conhecer? O descrito nos evangelhos sinóticos ou na teologia joanina? Ou o Jesus das pregações paulinas? Ou o Jesus da tradição eclesiástica? O Jesus da leitura teológica, instrumentalizada com aparato crítico e exegese nas línguas originais, ou o Jesus da leitura simplista? Qual deles é a verdade?

Qual a verdade que liberta? A dos teólogos ou a da prática ingênua do que se crê como verdade?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

TOLERÂNCIA NÃO É CONCORDÂNCIA

Ser intolerante é discordar e desaprovar. Não há como ser intolerante sem se posicionar contra o pensamento alheio, contra a diferença. A recíproca (tolerância = concordância) não é verdadeira.
Se sou intolerante eu tenho opinião formada sobre algo e não aceito que alguém possa ter opinião diferente. Isto se aplica à superioridade racial, religiosa, comportamental, sexual, etc. Por ser intolerante, quero que todos pensem igual a mim e só me alio aos iguais.
Por outro lado, se aceito que pode haver quem pense, aja, decida, seja diferente de mim, isto não implica, necessariamente, que concordo com a posição que o outro tem. Posso discordar respeitosamente, sem impor meu ponto de vista ao outro.
Olhando no retrovisor da minha vida, dou graças a Deus porque Ele me deu a chance de conviver com a diferença. Durante nove anos tivemos a Vera morando e trabalhando conosco. Ela era surda e muda. Tivemos o seu Pedro morando mais de um ano em nossa casa e ele era portador de hanseníase. Tivemos uma mulher indígena que trabalhou em nossa casa no Equador e ela tinha seus costumes bem diferentes dos nossos. Temos a Daisy morando conosco há quinze anos e ela é esquizofrênica.
Eu entendia e entendo a deficiência deles e nunca precisei ser tolerante com eles. Aprendi a lidar com as deficiências de cada um, da mesma forma como aprendi a lidar com as características de meus três filhos e da minha esposa e, com eles, também tive que “ser tolerante”.
Quando me relaciono com negros não preciso ser tolerante. Entendo, aceito e vivo a igualdade. A cor da pele não me obriga a ser tolerante. Eu aceito.
Há outras coisas que respeito, cultivo a tolerância, mas que não concordo. Entendo as diferenças religiosas, mas isto não significa que concordo com as doutrinas espíritas, budistas, islamitas ou judaicas. Respeito o direito de crerem diferentemente de mim, posso conversar, trabalhar junto, mas isto não quer dizer que concordo com o que creem ou pregam. Em muitos casos sou co-beligerante, mas não aliado.
Entendo a opção/orientação sexual, respeito, mas isto não quer dizer que concordo com o homossexualismo. Posso ter amigos e até pessoas que frequentam minha casa ou a igreja que se assumem homossexuais. Não tenho o direito de expulsá-los, de ofendê-los, de menosprezá-los, mas não posso por isto ser acusado de ser pró homossexual. Na minha vida já tive muitos homossexuais que vieram à igreja. Meu estudo de caso para o Doutorado foi com uma comunidade gay a qual pesquisei por quatro anos e fui expulso por eles quando eu disse que estava ali para estudar um caso e não para concordar.
Por outro lado, não concordar com algo não significa ser intolerante. Torna-se intolerância quando ofendo, agrido, busco constranger a ser igual a mim, imponho meus posicionamentos, uso de algum desequilíbrio de poder para forçar o outro a pensar como eu.
O fato de criticar coisas, governo, partido, igrejas, gurus evangélicos, estrelas do mundo gospel, políticos não é intolerância. É discordância. É usar da minha liberdade de pensamento e expressão. Ao expressá-la posso conseguir quem concorde comigo e quem discorde educadamente e isto é tolerância.

A agressão, a ofensa, a mentira são formas de intolerância!
Marcos Inhauser

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

CULTO CIDADÃO

O culto é a prática que reúne e dá direção para tudo o que fazemos como cristãos. É a realização prática e visível da fé, de tal forma que não se pode separar o culto da experiência completa da vida cristã. Tenho lá minhas dificuldades quando se adjetiva os cultos e se segmenta a experiência com rótulos como: Culto da Família, Culto da Benção, Culto de Evangelização, Culto da Prosperidade, etc. O culto é completo e nunca pode ser segmentado.
O culto cristão é e deve sempre ser a expressão holística da vida, de tal forma que o culto é a apresentação de nossos atos diários de amor ao próximo e exemplo para os demais, incentivando-os a também terem vidas de adoração. Ainda que se possa entender o culto como adoração, onde se confere a Deus o valor que Ele tem por Sua natureza, precisamos estar cientes de que não somos nós que nos aproximamos dEle no culto, mas é Ele quem se aproxima de nós e nos fala pela Sua Palavra.
Sendo assim, não é culto o que não transforma o adorador. Ele entra em um culto e cultua, com a disposição de ouvir e mudar em sua vida com o que lhe é revelado neste momento por Deus, através da Sua palavra. No culto ele recebe as instruções de como viver no meio de um mundo profano.
O culto em si não tem o poder e a eficácia. Ele será eficaz na vida dos que, reconhecendo sua condição pecadora, reconhecem a santidade de Deus e se dispõem a mudar seus atos e vidas para que sejam vividas de forma harmônica com os ensinamentos da Palavra.
É neste sentido que o apóstolo Paulo pede que se preste culto agradável a Deus que é o culto racional, onde a pessoa se entrega a Ele em sacrifício vivo. Quando isto acontece, o culto se transforma em algo da mais alta importância e relevância na vida do ser humano.
A experiência cúltica é o encontro com o numinoso. O profeta Habacuque coloca este encontro em termos de silêncio: “... o Senhor está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda a terra" (Hb 2:20); “Toda criatura esteja em silêncio diante do Senhor: ei-lo que surge de sua santa morada” (Zc 2:13). Creio que foi Karl Barth quem disse que o louvor verdadeiro se faz com o silêncio humano. Gritaria e barulheira não fazem parte do culto.
Assim entendido, não cabe no culto lugar para a magia, entendida como meio de manipular a divindade a fazer o que se quer, pelo uso de ritos, oferendas ou ofertas (em dinheiro). O culto não se presta a dar ordens a Deus, mas sim, para se receber dEle as orientações para a vida. O culto não muda a vontade de Deus, mas transforma a mente do adorador.
Quando esta transformação acontece, o adorador terá visão mais ampla e própria da realidade que o cerca, da polis onde vive e será movido a atuar no seu contexto de forma a vivenciar o que no culto lhe foi revelado. Assim, a fé se transforma em atos cívicos, a sua ação tem um componente político, uma vez que será pautada por valores outros que os dominantes na sociedade. O adorador viverá a contracultura da fé e sua vivência será sal na terra e luz no mundo. O culto se torna cidadão!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

CRISTÃOS POLÍTICOS OU POLUÍTICOS?

Há alguns cristãos que se envolvem com a política e confundem as luzes que vêm das Escrituras e da igreja como sendo as do programa de um partido político e acabam transformando sua militância como igual à sua vida cristã. Eles se esquecem que Deus não está em competição com a natureza, mas que Deus e somente Deus pode ser Jesus Cristo, perfeitamente humano e divino, não se confundindo com as coisas criadas como se estas fossem extensões do Seu ser, concepção ao gosto dos panteístas. Nenhum governo, programa de governo, partido ou programa partidário pode ser tão divino ao ponto de ser tomado como sendo manifestações do Reino de Deus. Este foi o grande problema dos adeptos da teologia do Destino Manifesto, que confundiram o American Way of Life como sendo o próprio Reino de Deus.
Os que se envolvem com a política partidária precisam se lembrar constantemente que Deus não fez e age no mundo via manipulação, violência, chantagem ou injustiça, tal como muitos dos mitos e deuses pagãos fazem. Porque Deus criou as coisas do nada (creatio ex nihilo), a criação foi um ato da mais pura generosidade e graça. Se os religiosos-políticos não entenderem isto (a generosidade e graça divinas na criação), eles se sentirão compelidos e autorizados a praticarem atos injustos, iníquos e corruptos.
É o amor e a qualidade dele, exercido por Deus na criação e na manutenção das coisas criadas, que define e determina a maneira como devemos viver em comunidade e que deve ser a vida em comunhão. A liberdade separada do amor só pode se tornar em licenciosidade, forma deturpada de amor e mera busca da felicidade. Assim procedendo, os programas terceirizam o amor, mas ao mesmo o privatizam como sendo atos de governo (vide Bolsa Família e outros programas sociais). Adicionam a este cardápio a departamentalização da comunhão: nós e eles, governo e oposição, eleitos e golpistas.
A igreja de Jesus Cristo e seus fieis não devem buscar o poder político como projeto eclesiástico. A igreja que se identifica com um partido ou o utiliza para ter mecanismos de pressão pela eleição de deputados via manipulação dos fieis para votar nos pastores e bispos da Igreja, deixou de ser igreja e passou a ser ente político. Deixou de servir para servir-se do poder.
Cristãos que se envolvem com a política devem ter consciência de que devem ser exemplo de integridade, serviço e amor ao próximo. Não podem estar associados ao serviço retributivo ao próximo, esperando recompensa em votos de possíveis favorecidos ou fazendo advocacia de porta de cadeia, nem podem ser forjadores de documentos falsos, mesmo que lhe emprestem certa legalidade, ainda que fajuta. Devem ser exemplo de trabalho em comunhão e nunca se enquadrar no que Pedro escreveu: “como dominadores sobre os que vos foram confiados” (1 Pedro 5:2,3). Devem dar o exemplo do serviço e nunca chantagear o rebanho com a “retirada da proteção espiritual que o pastor oferece”.
Como pode ser um cristão político, exercendo cargo no executivo ou legislativo se não deu exemplo no trato das questões de obediência aos princípios da Palavra (como não mentir, não roubar, não prestar falso juramento, não ameaçar, não chantagear, não se colocar como absoluto)? Terá ele mais ética no trato da coisa pública do que teve na relação com o próximo e com Deus? Como esperar que obedeça à Constituição se não obedeceu ao Estatuto e Regimento Interno de sua comunidade? Que usa da Igreja para lavar dinheiro de propina? Que recebe salário sem trabalhar? Que usa o nome da Igreja para legitimar seu trabalho solitário de angariar votos?
Há gente que se diz especialista em leis, não para cumpri-las, mas para burlá-las, para manipular juízes. Nisto está a diferença que um dia um estrangeiro me mostrou: “na Europa, quando se promulga uma lei, o povo busca como cumpri-la; no Brasil, diante da nova lei, busca-se como burlá-la”.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CRER É PENSAR?

Há muita gente que entende haver antagonismo entre a fé e a racionalidade e as veem como excludentes: quem tem fé não pode pensar e quem pensa perde a fé. Para muitos, a ida dos jovens à faculdade ou universidade é de alto risco para a fé, porque muitos “se perdem”.
Há que considerar-se que o ser humano precisa pensar e é impossível viver sem fazê-lo. Conhecer fatos e entendê-los faz parte da essência da vida. Ainda que haja graus de interesse no descobrir das causas e desenvolvimento das coisas, todos têm um grau de interesse em saber das coisas. O pensamento é a ferramenta que promove a ação. Assim, o pensamento no contexto da ação é o que se manifesta no início e término do ato de reflexão sobre um fato ou situação dada. É a novidade do fato ou do evento que leva à necessidade de conhecer e agir diante dele e isto só se dá porque houve o pensamento. Coloca-se em ordem o pensamento, compreende e diante da compreensão decide o que fazer diante da novidade. Não há decisão e nem ação sem o pensamento, fruto da reflexão.
Conclui-se, então, que o pensamento não é estático, uma coleção de conteúdos guardados no fichário da mente e recuperado incólume a cada vez que dele se necessita. Ele é um jogo de operações vivas, atuantes, transformados pela nova experiência, interpretação e contexto.
Se pensar é entender o fato, o evento ou a novidade, nada mais lógico que a fé envolve o pensar. Se se crê em um Deus todo poderoso que nos surpreende a cada momento com a novidade de Suas ações, que pede que se cante cânticos novos a Ele todos os dias, que a cada dia pinta no amanhecer e no pôr-do-sol uma nova pintura, que a cada pouco nos maravilha com Sua graça, como ter fé “congelada”? A fé baseada em conceitos que vão para o freezer da memória e lá ficam inalterados até o dia da morte, não pode ser chamada de fé.
Um Deus que se mostra em novidade a cada dia e em cada situação, não pode ser adorado, servido e entendido com afirmações rígidas, inflexíveis, dogmáticas, sistemáticas. Por isto afirmo, e o faço no temor, que o conservador não entende de Deus. Deus não cabe nas afirmações dogmáticas, sistemáticas, nas teologias enlatadas e nas jaulas de templos onde impera a arrogância da ignorância. Ele pode dizer o que Deus fez no passado, mas nunca vai entender o que Ele está fazendo hoje e agora. Ele usa métodos arqueológicos para explicar Deus. Arqueólogos não podem ser criativos, mas devem ser interpretativos, com alto grau de “chutabilidade”. Tremo (de raiva) quando ouço frases como; “ a vontade de Deus nesta situação é...”; “o que Deus quer de você é...”; “Deus está usando isto para te ensinar a ...”; “tenho uma palavra de Deus para você...”, etc.
Os conservadores, e ainda mais os fundamentalistas, falam de um Deus do passado, mas não conseguem ver este Deus no caminhar junto aos seus no dia-a-dia. Creem no totaliter aliter, mas não acreditam no Emanuel (o Deus conosco, ao lado, passando comigo os perrengues da vida). O texto de Hebreus que afirma que “Ele em tudo foi igual a nós” é esquecido.
Creio no Deus que anda comigo no jardim do Éden que é a criação que Ele me deu para desfrutar e que me fala no sussurro da brisa, no barulho do gotejar da chuva, no canto dos pássaros e na palavra dos profetas, que me revela quem sou na Sua Palavra!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

PASTOR, OVELHAS, LOBOS E TIGRES

Recebi este texto do Rev. Marcos Kopeska, amigo e colega de ministério, que edito para que caiba neste espaço.
“O profeta Jeremias, lá pelos idos do ano 600 a.C., alimentava uma esperança que reflete nosso anseio hoje: "...e dar-vos-ei pastores segundo o meu coração que vos apascentem com sabedoria e conhecimento." (Jr 3:15). Conta-se a fábula de um pastor que gostava muito de suas ovelhas. Elas não tinham presas, garras e nem chifres. Eram indefesas e o pastor prometeu defendê-las sempre. Jamais mataria uma ovelha para comer, por isso vivia de frutas e legumes e, se necessário fosse, passaria fome. Em razão da sua dieta era muito magro, por vezes debilitado, não obstante feliz com sua vocação. Nas cercanias moravam lobos que apreciavam churrasco de ovelha, por isso a atenção do pastor era intensa e incansável. O gostar de ovelhas, sob a ótica do pastor, tinha a ver com a lã da ovelha, mas sob a ótica dos lobos tinha a ver com churrasco.
Todo líder alega gostar de seus liderados, mas sob qual ótica? Pois bem, a notícia de que havia ovelhas por ali se espalhou e logo vieram hienas e cães morar com os lobos. O pastor impotente, com apenas um cajado, muniu as ovelhas de couraças, chifres e dentes de aço. As ovelhas, sem saberem lidar com o equipamento tornaram-se mais frágeis ainda e os churrascos mais frequentes. O pastor teve então a brilhante ideia: “Vou contratar tigres para cuidar do rebanho, mas precisam ser tigres vegetarianos.” Encontrou-os, contratou-os mas aos poucos eles foram degustando os restos de ovelha deixados e concluíram que carne de ovelha era mais palatável do que frutas e vegetais.
Os tigres fizeram um acordo com os lobos e hienas de que de dia cuidariam do rebanho, mas de noite comeriam juntos o churrasco de ovelha, ocasionalmente morta por causas “que fugissem ao seu controle”.
O pastor observando que os tigres estavam relapsos no cuidado, chamou-os para uma repreensão, mas ao longo da repreensão um tigre, sem dar muita atenção às palavras do pastor, perguntou: “Qual seria o gosto da carne de um pastor?” Outro respondeu: “Só provando para sabermos.” Entre a fala dos tigres, o pastor notou que entre os dentes de um dos tigres havia vestígios de lã. O pastor interrompeu a conversa, entendendo o que acontecia e propôs: “Vamos fazer um acordo...” A assim viveram felizes, num bom acordo de paz: pastor, lobos, hienas, cães e tigres. Vez ou outra comemoravam os avanços da paz com um churrasco de ovelha.
O pior é que parece ser este o padrão da relação “Igreja & Estado” a que chegamos em nossa Pátria mãe gentil. Alguns pregam que o cristianismo deve ser apolítico, mas aí os churrascos de ovelha serão mais frequentes e descarados. Outros creem que a igreja deva ser politiqueira, fazendo parte dos acordos em troca de favores. Ela se torna lobo ou hiena, menos ovelha. Creio que devamos promover ambientes cristãos de esclarecimento – apartidários - sobre temas relevantes que envolvam os próximos debates políticos da nação. Criar espaços onde as comunidades reflitam sobre corrupção, violência, modelo de família, assistencialismo, aborto, educação, ... Espaços onde nossos adolescentes conheçam uma nova consciência cidadã cristã. Espaços que levem o povo cristão às urnas, livres dos sutis enganos e das viciosas seduções da política partidária.  Ambiência de conscientização e reflexão, não de acordos.
Que Deus nos ajude a ter uma nação com pastores e ovelhas, mas sem churrascos após cada eleição.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A COBIÇA DO PODER

Há no imaginário popular a ideia de um grande juízo no fim dos tempos, quando todos deverão responder pelos seus atos, toda a verdade se estabelecerá e a justiça prevalecerá. Nesta corrente vem o ditado popular: “a justiça dos homens falha, mas a de Deus prevalecerá”.
Este conteúdo escatológico que se dá à plenificação da justiça se deve ao fato de que, como humanos, cometemos injustiças e ao assim proceder, atentamos para a concretude da paz, porque não há paz sem justiça.
Na análise do comportamento humano (e isto já foi feito uma infinidade de vezes), há os que reduzem as mazelas comportamentais e a causa das injustiças, atribuindo à cobiça, por entender ser ela a causa mater de todos os pecados. Ela está elencada no Decálogo Mosaico e pode-se resumir nela todos os demais pecados. A cobiça do poder, a cobiça da mulher alheia, a cobiça dos bens alheios.
O relato da criação e queda do ser humano relatado pela Bíblia coloca o pecado primeiro na categoria da cobiça de poder: seriam iguais a Deus. O projeto de se tornarem mais do que eram os levou a tropeçar e perder o paraíso.
No mundo moderno a cobiça pelo poder ainda vige livremente. Os super-heróis das revistas em quadrinhos e mais modernamente dos filmes de ação, são pessoas dotadas de poderes ilimitados para combater os que querem assumir o poder sobre todos. Poder foi o que satanás ofereceu a Jesus durante a tentação.
Nesta tentação caíram muitos. Desde a antiguidade até os dias modernos há uma sucessão de pessoas que quiseram ser ultra-poderosos: os Faraós, os reis persas, babilônicos, Salomão, Alexandre, Napoleão, Hitler, os Bush (pai e filho). Temos hoje o norte-coreano Kim Jong-Un que não pensa duas vezes para eliminar quem não se conforma totalmente aos seus desejos totalitários.
Há partidos que cobiçam o poder e estabelecem planos para ficar X anos no poder. Lá chegando, aumentam o sonho e se locupletam para que a permanência possa ser indefinida. Fazem esquemas, montam lavanderias, compram fidelidades para assegurar a reeleição, compram o silêncio dos cúmplices, contratam advogados a peso de ouro, compram a maioria no congresso, buscam a própria estabilidade econômico-financeira.
Nesta cobiça do poder e da perpetuação nele, não se envergonham de fazer coisas condenáveis e, quando flagrados, saem com a cara-de-pau afirmando que sempre se fez assim, que não são os únicos, que a PF deveria se preocupar com questões mais importantes. Para a mídia, fazem declarações de inocência absoluta. Mesmo diante de extratos bancários comprobatórios, negam, de pés juntos, que o dinheiro que está na conta em seu nome e que tem a sua assinatura, não é dele e nem a conta lhe pertence.
Por ser o poder algo tão tentador e aderente, se assemelha a uma tatuagem: marca e se remove só parcial e cirurgicamente. Daí porque, na história da humanidade, as renúncias são mínimas e aconteceram em situações limítrofes: saúde abalada ou credibilidade zero, que gera um desgoverno.
Estamos em uma situação quase-limítrofe: pode piorar ainda mais. Os que propugnam a renúncia o fazem por candura, sem a concreta esperança de que ela se dê. O Nixon renunciou porque não tinha alternativas. O Collor tentou renunciar diante da iminência da cassação. O Blatter fez uma renúncia branca. Tem gente que prefere morrer a renunciar: Vargas e Allende.
A eleição é tão constitucional quanto a renúncia ou o impeachment. O que não é constitucional é o uso da mentira para se eleger ou reeleger.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MOISÉS E EDUARDO CUNHA

O legislativo entrou na pauta das preocupações e atenções do povo brasileiro. No mandato do Eduardo Cunha, um ex-membro da Igreja Sara Nossa Terra e atualmente vinculado à Assembleia de Deus, tem traços que me fazem lembrar o Moisés bíblico.
O Moisés viveu no fausto do palácio do Faraó. O Cunha participou do governo Collor e por ele indicado foi para a presidência da Telerj onde reduziu os investimentos da empresa para se ajustar ao projeto collorido de privatizar as estatais. Para tanto, criou uma comissão de licitação vinculada a seu gabinete. O TCU constatou irregularidades na contratação de servidores, que deu tratamento privilegiado a alguns fornecedores e falhou na licitação para a edição de catálogos telefônicos. À época, foi acusado de superfaturamento ao ter assinado aditivo de US$ 92 milhões em contrato da Telerj. Viveu nos palácios colloridos!
Moisés teve um delito em sua vida passada, antes de assumir a condição de salvador da nação: ele matou o soldado egípcio e por causa disto teve que fugir. O Cunha tem muitas coisas a explicar relativas ao seu passado.
O Moisés se apresentou ao Faraó e ao povo como salvador da nação escravizada. O Cunha também o fez, apresentando-se como candidato que traria a independência a um legislativo submisso à maioria governista. Dez pragas foram necessárias para que conseguisse realizar sua obra. O Cunha, com sua pauta-bomba, já semeou algumas pragas na economia brasileira.
O Moisés teve a perseguição do Faraó que queria prendê-lo. O Cunha tem a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal atrás dele. O Moisés teve o Mar Vermelho à frente, o Cunha tem o STF e um ministro de cara avermelhada pelos traços étnicos. O Moisés passou incólume, o Cunha tem fé de que também passará.
O Moisés subiu ao monte Sinai e de lá voltou com as leis para o povo. Não houve a participação popular e desceu com a chancela do divino nas tábuas que trouxe. O Cunha subiu na cadeira presidencial e do alto deste seu Sinai, anda legislando a seu bel-prazer, mais para infernizar a situação que para beneficiar o povo. Há nele um messianismo achando que salvará a nação. Só ele se sente chamado.
Quando o legislador se afasta do povo para legislar, o povo padece com as leis promulgadas. Ainda que os Dez Mandamentos tenham valores até hoje aceitos, a jurisprudência feita pelos sacerdotes autorizou o matar a pedradas quem não guardasse o sábado, desobedecesse ao pai, a mulher que adulterasse. A lei pode até ser boa, mas os jurisconsultos a deturpam.
Não foi o caso de Jesus. Ao promulgar as bem-aventuranças (código relacional a vigir no ambiente da graça e do Reino, codificadas nas bem-aventuranças), Ele o fez com o povo à Sua volta. Subiu à montanha, mas não o fez no isolamento e sim na companhia de uma multidão. Não legislou em causa própria, mas rompeu com a lógica da justiça retributiva, muito usada pelo Cunha: fez, leva o troco.
O Moisés tem o testemunho que foi o homem mais manso que houve na face da terra. O Cunha tem o testemunho de ser violento, ameaçador e vingativo. O Moisés, ainda que tivesse sonhado com isto, não entrou na terra prometida. O Cunha, ainda que sonhe, não chegará à cadeira presidencial.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

JOVEM, CRISTÃO, XIITA!

Em conversa com alguns colegas pastores temos levantado e trabalhado a questão de uma geração que tem se mostrado conservadora e agressiva. As conversas iniciaram-se a partir da pergunta: como é que os grupos terroristas islâmicos conseguem arregimentar jovens, grande parte deles instruídos e vivendo em países com alto grau de desenvolvimento? A pergunta decorrente foi: como é que movimentos radicais, dentro do cristianismo, têm conseguido arregimentar jovens?
Esta pergunta, se bem me lembro nasceu com a notícia de que a Universal havia formado um pelotão de jovens denominado “Guardiões do Altar”, os quais, entre outros cânticos tem este: “Eu não temo a Batalha / Nem o contra ataque do mal / Eu não temo a tempestade / Fui selado para vencer / Eu já me armei com o escudo da fé / E o capacete da salvação / Não temerei vou enfrentar / Eu correrei pra conquistar/ E saltarei pra celebrar / Gritarei e as muralhas cairão”. O espírito beligerante é claro. O fundamentalismo extravasa pelos poros.
O jovem Dylann Storm Roof, de 21 anos, se achou no direito de entrar em uma igreja negra e matar nove pessoas que participavam de um culto em uma igreja em Charleston. Na sua justificativa, afirmou que queria uma guerra civil com tendências supremacistas dos brancos. Em seguida, várias igrejas negras foram incendiadas.
Há outro tipo de violência dos jovens que ocorre, com mais frequência na internet, em locais onde está aberta a troca de opiniões e se pode fazer comentários. Invariavelmente, as colocações feitas são de cunho agressivo, ofensivo, violento. Há enorme dificuldade em aceitar que alguém possa ter posição diferente, mesmo que seja superficial. Em um destes sites “evangélicos” li comentários dignos de briga entre torcedores de times rivais, inclusive com o uso de palavrões. Alguns amigos me confidenciaram que tinham a ideia romântica de que poderiam fazer alguma diferença postando algumas observações críticas ou ponderações sobre o que outros haviam escrito. Desistiram. Um deles, de tradição ortodoxa, o que mais levou foi pedrada de outros ortodoxos.
Guga Chacra, que escreve para vários jornais e revistas e comenta temas internacionais na Globo, em seu blog no Estado afirma: “Comentários islamofóbicos, antisemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. ... O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes.” Pelo visto ele também já foi vítima de muitas pedradas.
A recente turbulência na Câmara Municipal de Campinas sobre a questão do ensino sobre gêneros nas escolas é prova desta virulência. Todos queriam falar, ninguém estava disposto a ouvir. Ofensas mil, acordo nenhum. Não houve diálogo, mas diátribe.
Dia destes um amigo teólogo, com doutorado na área, me perguntou se eu estava acompanhando os ataques dos fundamentalistas à “ingênua teologia da missão integral”. Disse que não. Ele me informou que os fundamentalistas estão atacando o conceito de missão integral (o evangelho todo para o homem todo) como tergiversação dos ensinos bíblicos. Preferem esquartejar o ser humano em “corpo, alma e espírito. Talvez façam isto pela falta de outro inimigo, porque a teologia da libertação já não vige como antes e a teologia relacional muito pouco adentrou no Brasil.
Assustadoramente, em pleno século XXI, estamos vendo o ressurgir de ideias de supremacia racial, de discriminação religiosa, de violência assassina contra a diferença.
Marcos Inhauser