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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

ARROGÂNCIA DO FUNDAMENTALISTA



O fundamentalismo cristão tem dois fundamentos (daí o nome) sobre as quais constrói seu universo cognitivo: a inerrância e a infalibilidade das Escrituras. Para que isto se consolide, ele afirma outros dois fundamentos derivados: inspiração verbal e plenária das Escrituras. Com isto, as Escrituras não trazem nenhum erro e, portanto, tudo quanto diz é infalível. E é infalível porque cada e toda palavra das Escrituras foi “soprada” por Deus a homens que escreveram o que ouviram ou viram. Os mais radicais chegam a afirmar uma ação mecânica do escritor que seria mero transcritor do que Deus ia lhe ditando.
Na esteira destes fundamentos há afirmações consequenciais. Uma delas é que as Escrituras comportam uma única interpretação que é a que interpreta fielmente a mensagem (também única) que o texto traz. Se duas pessoas interpretam um mesmo texto de duas maneiras diferentes, uma delas, certamente, estará errada. Como é quase impossível alguém reconhecer que a sua interpretação é a errada, fica fácil perceber a anatematização do dissidente. O herege sempre é o outro! Se a minha interpretação é a correta e, por consequência, a que apreende a palavra de Deus infalível, a minha interpretação também é infalível, confundindo-se com a própria Escritura. Agora as Escrituras e minha interpretação são infalíveis.
Outra afirmação consequencial: a Bíblia tem resposta para tudo. Ainda que ela não diga nem uma linha sobre férias de trinta dias, direito ao décimo terceiro salário e à aposentadoria, licença maternidade, seguro desemprego (isto para ficar no campo dos direitos trabalhistas), por inferências, deduções enviesadas e conclusões questionáveis, estes fundamentalistas insistem em encontrar na Bíblia resposta para tudo. Já ouvi que a Transamazônica estava prevista na Bíblia, que não se deve comprar imóvel na praia porque o mar vai virar sangue, que seria impossível ao homem pisar na lua, que o Kissinger, Hitler, Busch, Reagan, Saddan Hussein, Mao Tse Tung, Lenin e o Papa são a besta do apocalipse. Já ouvi mais de seiscentas e sessenta e seis explicações sobre o significado do número, todas as vezes com a chancela de interpretação infalível.
Como decorrência dos fundamentos, há a maniqueização da humanidade: nós e eles. Nós somos os bons, os salvos, os santos. Eles são os ímpios, condenados, devassos, promíscuos, corruptos, etc. E porque vão mesmo para o inferno e têm a capacidade de infernizar as nossas vidas, podemos dar uma ajuda a Deus mandando-os para inferno antes da hora. Declara-se a “guerra justa” versão antiga e cristã da moderna “guerra santa” dos jihadistas. Foi o que fizeram nas Cruzadas, na Inquisição, na Guerra dos Camponeses, entre tantas outras. Este também é substrato que alimenta grupos armados fundamentalistas que existem ao redor do mundo, e especialmente nos Estados Unidos, quase todos de tendência apocalíptica. Exemplo disto são David Koresh e seu compound e Jim Jones com o suicídio coletivo nas Guianas. Mais recentemente tem havido um incremento de novos grupos armados de inspiração cristã para combater os muçulmanos fanáticos, notadamente o Boko Haran e o Estado Islâmico.
Por assim crer e agir, o fundamentalista tem uma característica comum: são arrogantes! Não conseguem manter um diálogo, antes insistem em falar compulsivamente, como para impedir que uma visão diferente possa prevalecer. Diante de uma pergunta para a qual não têm resposta, ao invés de dizer “não sei” preferem estigmatizar o perguntador como herege. A ignorância deles é heresia em quem pergunta.
Quase sempre terminam uma tentativa de diálogo afirmando: ou você aceita o que lhe digo ou você vai arder no fogo do inferno.
Para lá já fui mandado muitas vezes.
Marcos Inhauser

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A AUTODIVINIZAÇÃO



Se Deus é infinito e incognoscível, conhecê-lo se coloca no campo das possibilidades e das tentativas. É uma ação enquadrada no campo do não-poder, da impossibilidade, que, longe de impedir a busca, se faz no limite da consciência da incapacidade de conhecê-lo em sua plenitude. Quando se tem esta consciência, o conhecimento que se tem passa pelo filtro da lógica e aflora sob o manto da humildade, uma vez que, nunca será o conhecimento absoluto e definitivo. Mais ainda: será o conhecimento aberto às novas buscas e saberes, sabendo que é uma caminhada sem fim, mas que pode estar no rumo certo.
O problema do fundamentalismo de qualquer naipe e religião é que o portador de um “saber” (ainda que não necessariamente errado) entende que o seu conhecimento é absoluto, definitivo, normativo. Confunde o que pode saber sobre Deus com o próprio Deus e a enunciação da verdade que diz possuir tem a aura de ser a vox Dei. Ainda que possa ter passado pelo filtro da lógica, o fundamentalista se caracteriza pela enunciação arrogante de “suas verdades” porque entende que fala o que Deus falaria.
Ao assim proceder tem outra característica no discurso: a ênfase na condenação dos que pensam ou agem diferente do que pensam e agem. Eles não toleram a diferença! Na sua visão, dicotomizam o mundo entre fieis e infiéis, santos e pecadores, justos e injustos. Esta visão maniqueísta, onde tudo é preto ou branco, os cinzas do questionamento, da busca incessante da verdade, a crítica, a pergunta inteligente, a explicitação das incoerências são vistos como obra demoníaca e passível de condenação.
Parece que se alegram com os que são condenados e não com os que são salvos. Cada um que é “condenado” pelas suas ortodoxias é mais um ponto de mérito para os iguais que repetem a mesmice ad eternum.
Aqui se tem outro dado deste comportamento: a novidade é proibida. Os fundamentalistas não podem pensar, só repetir o que há tempos vem sendo dito. Quais papagaios religiosos, sabem umas tantas coisas de memória que as repetem à exaustão e, em um círculo de louvação mútua, se parabenizam pela fidelidade em “re-dizer” as coisas. Assim se tem um comportamento bipolar: louvam-se mutuamente e execram os dissidentes ou diferentes. Haja espírito de corpo (ou de porco?) para que se retroalimentem infinitamente.
Um amigo que não é liberal, mas que pensa, ao fazer uma análise do filme Perdido em Marte em paralelo com a parábola do Bom Samaritano, foi execrado por xiitas cristãos que declararam guerra santa e prometeram detonar tudo quanto viesse a escrever.
Há uma semana recebi artigo de um pastor indignado com a falta de sensibilidade artística. Uma imagem (bastante decente e sóbria) da Eva comendo uma maçã com uma serpente envolta em seus pés, tinha à sua frente a Maria grávida e ela pisava com seus pés a cabeça da serpente. A celeuma criada foi porque o texto bíblico não fala de maçã como o fruto proibido e porque a promessa bíblica é que Jesus pisaria a serpente e não Maria. Isto era endeusar a Maria! Haja literalismo e burrice artística!
Os que acreditam que o que conhecem sobre Deus é a palavra final, tem, por consequência, a autoridade para julgar e condenar. Conseguem ver nas vírgulas heresia, nas exclamações hedonismo, na valorização do ser humano humanismo. Sem saber o que isto quer dizer, acusam de existencialista, marxista, evolucionista, darwiniano, esquerdista, apóstata, adepto da teologia relacional, etc. Eles assim o fazem porque creem com profunda convicção de falam como se deuses fossem. É a autodivinização só reconhecida por eles e seus pares de louvação mútua!
 Marcos Inhauser

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

PROFUNDOS CONHECEDORES DO INCOGNOSCÍVEL

Fico estarrecido com a facilidade de certos “intindidos de Deus” em fazer ousadas asseverações acerca dEle, como se o conhecessem tão bem quanto a si mesmos. São comuns as frases como: “a vontade de Deus é ...”; ‘o que Deus quer te ensinar é ...”; “Deus vai pesar sua mão sobre você”; “isto é castigo de Deus”; “o que Deus quer é ...”; “Deus vai fazer isto ou aquilo”; “Deus quer te dar uma lição”; “é a mão de Deus que está pesando sobre você”; “Deus vai operar maravilhas hoje”; “o centro da vontade de Deus é ...”; “a família é o projeto do coração de Deus”; “este Deus mandou para o inferno”; etc.
Nos últimos tempos tenho visto ousadia ainda maior. Gente que afirma que “o que Jesus tinha em mente quando falou isto é ...”” Desafio a estes “intindidos” a dizer o que estou pensando enquanto escrevo estas linhas. Se não conseguem precisar isto, como podem se arvorar em detentores do conhecimento da mente de Jesus?
Não só o conteúdo destas frases mostra a arrogância de quem as fala pela pretensão de conhecerem a mente de Deus, mas, e muito mais grave, é a petulância arrogante com que as pronunciam. Usam deste pretenso conhecimento para manipular e se colocar como seres mais próximos de Deus que os simples mortais.
Se, por definição, Deus é o Ser Absoluto, Infinito, Incompreensível, o conhecimento sobre Ele só pode ser tentativo, especulativo e deve ser feito em humildade de quem só sabe que dois mais dois são quatro diante da complexidade de toda a matemática.
Aliado a esta pretensão do conhecimento do que não é possível conhecer na sua integridade, alia-se a preguiça mental dos ouvintes. É mais fácil dar crédito a um imbecil do que avaliar e criticar a mensagem de um pretenso iluminado. Isto me faz lembrar da frase de um amigo de longa data que dizia que “todo palhaço tem sua plateia”. Mas o que mais me assusta é que são estas mentes brilhantes que conseguem entender a totalidade do ser de Deus os que mais plateia tem, sinal inequívoco do que as Escrituras afirmam sobre os últimos tempos: cercar-se-ão de mestres segundo suas cobiças. Mudo a frase: cercar-se-ão de mestres segundo suas preguiças mentais.
Há alguns anos escrevi aqui quatro colunas. Teologia com ponto final, com exclamação, com interrogação e com reticências. Nelas eu já colocava estas minhas preocupações e dizia que a teologia com ponto final é problemática. Diante de Deus posso ficar maravilhado (!), intrigado (?) ou reticente (...), mas nunca posso ser taxativo (.). A palavra chave no pensar teologia é talvez, pode ser, há possibilidade ...
Se o teologizar é o caminho da possibilidade com a necessidade constante de revisão das crenças, a certeza absoluta perde terreno. Instala-se o reino da possibilidade e isto foge ao conceito da religião como coleção das certezas endeusadas como absolutas, tão ao gosto das massas preguiçosas em pensar e consumidoras fáceis e contumazes de ideias alheias com tempero de absoluto.
Por outro lado, o pregador das possibilidades tem seus suores na tarefa de fazer pensar. Se hoje o sucesso de uma igreja se mede pela quantidade de gente, o pregador das possibilidades tem mais dificuldades com arrebanhar multidões. Assim, para mim, templos cheios é evidência de local das certezas absolutas e, portanto, da negação do teologizar sério.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A CERTEZA DEIFICADA



Temos horror à incertezas! A dúvida nos corroe e nos mata. A pergunta sem resposta atemoriza e nos traz desconforto. O silêncio do outro nos deixa intranquilos.
Precisamos de certezas, de diagnósticos, de verdades, de respostas de soluções. Quanto mais inseguros somos, quanto menos resolvidos formos, mais medo teremos da dúvida, mais nos agarraremos a qualquer certeza que se nos apresente, fazendo-o a acriticamente. Uma pergunta que possa trazer alguma dúvida é vista como arma do inimigo para roubar a paz que a certeza dá.
Os mais imaturos se apegam a "verdades" proferidas por alguém e se apegam a elas com fervor proporcional ao brilho que o "iluminado" tem.
Com estas considerações tenho pensado na religião como o esforço coletivo para a preservação de certas verdades que dão resposta e segurança aos imaturos. Toda religião que se preze tem uma confissão de fé ou um credo, conjunto das certezas adotadas e defendidas com as armas da rotulagem de herege, apóstata a quem ousa pensar diferente. Estes, no mais das vezes, são expulsos e anatematizados. Estes recursos garantem a preservação da "sã doutrina" e das certezas adotadas.
Percebe-se assim porque pregadores, pastores sacerdotes são como papagaios que repetem frases conhecidas. A função deles não pode ser a do propor o novo, mas repetir ad nauseam o velho, o sabido, o que dá a paz das certezas. Por isto eles não são treinados na arte de perguntar, mas adestrados na tolice de ter respostas para tudo. Como animais pavlovianos são agraciados a cada resposta que dão, sejam elas fundamentadas ou não. As questões mais cruciais recebem rótulos pomposos de "obra de Satanás", possessão, vontade de Deus, castigo de Deus, está colhendo o que plantou, etc.
Sob está perspectiva a religião é a divinização das respostas, a deificação das certezas, a glorificação do não-pensar, a imbecilização do eterno repetir, a demonização do perguntar, a heresia do questionar, o descarte da incoerência, o assassinato da lógica.
Pensar e perguntar não fazem parte destas espiritualidades. Ouvir, dia após dia, as mesmas argumentações, o mesmo raciocínio, as mesmas coisas é ser espiritual. Perguntar e questionar são sinais de " carnalidade". Repetir abobrinhas é santidade. Odiar quem pergunta é ação louvável. Matar infieis é jihad, guerra santa. Ser xiita, sunita, fundamentalista, conservador, ortodoxo é garantia de salvação e galardão no paraíso.
Assim, as religiões nunca foram e não podem ser democráticas. Elas não podem abrir a discussão sob pena de perder o controle. Elas exigem um "sábio que tudo sabe" e uma horda de concordantes. Transformam na congregação da violência simbólica, onde a ignorância é elogiada, a verdade monocromática estabelecida, a participação comunitária na construção do conhecimento e das certezas evitada e condenada.
Tem-se um universo de formigueiro: uma rainha desfrutando de um exército de fiéis operários.

Marcos Inhauser