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quarta-feira, 13 de julho de 2016

GESTOS DE AMOR

A Igreja da Irmandade está há 106 anos na China. Começou com um trabalho médico, teve algumas igrejas, com a revolução maoísta elas foram fechadas e ficou o trabalho médico. Eles hoje têm uma casa de acolhimento de doentes terminais, na quase totalidade com câncer, sendo uma das poucas existentes no país.
Um dia receberam um doente muito mal. Não tinha parentes e vivia completamente só. Acolhido, recebeu tratamento, carinho, atenção e aquilo se tornou no seu lar. Um dia a cuidadora perguntou a ele qual o desejo que ele tinha a ser realizado antes que morresse. Muito constrangido disse que queria lavar os pés. Ela, seguindo a tradição anabatista do lava pés, tomou da bacia, toalha e água e lavou os pés daquele moribundo. Ao terminar, ele segurou a mão dela e disse: “há dezoito anos que não lavo os pés, porque não conseguia”. Ele faleceu pouco depois.
A Igreja da Irmandade está há mais de vinte anos na República Dominicana. Já tratei aqui, por três vezes, da surreal situação dos filhos de casais haitianos, ou de um casal em que um deles é haitiano e que os filhos nasceram na República Dominicana. Não podem ter certidão de nascimento, e por isto não têm acesso ao sistema público de saúde e educação. São indocumentados e apátridas. A igreja tem uma boa porcentagem de haitianos, tem trabalho em Bateis (vilas isoladas onde vivem os indocumentados e que se dali saírem podem ser presos), tem pastores haitianos e indocumentados.
Houve forte pressão internacional e o governo teve que abrir um processo de arrolamento dos haitianos/dominicanos (HD), para dar a eles uma cédula de identidade. Um dos pastores da igreja, HD, indocumentado, foi encarregado de mobilizar as pessoas, levá-las para fazer o registro e ajudar nas custas (verba da Igreja nos EUA foi dado para que este trabalho pudesse ser feito).  No meio do seu trabalho encontrou um senhor HD, doente, sem família, sem moradia, aterrorizada pelo medo de ser preso e deportado, sem consciência de que poderia ter a sua cédula de identidade. O pastor o tomou pelas mãos, fez o que devia ser feito: levou-o ao Departamento de Inscrição, testemunhou a seu favor, buscou descobrir onde tinha nascido, nome dos pais, etc.
O problema se complica ainda mais porque, em muitos casos, casais que iam ao hospital para o nascimento, de medo de serem presos e deportados, davam nomes fictícios e muitos apresentavam identidades de dominicanos que emprestavam seus documentos. Assim, encontrar o registro de nascimento não é o suficiente, porque o nome do pai ou da mãe pode estar adulterado.
No caso do velho senhor HD não conseguiram, mas pelo testemunho da igreja e do pastor que gestionava a seu favor, ele conseguiu a sua cédula de identidade. Mais: a igreja propiciou-lhe um local para morar.
Em uma de minhas viagens à RD estive em um Batei. Lá havia uma escola só para crianças indocumentadas e impedidas de frequentar a escola pública. Esta escola era fruto da dedicação de uma haitiana, legalizada na RD, que decidiu abrir a escola e mantê-la com as ofertas que recebesse. Ela tinha uma sala de aula, uma cozinha, um banheiro precário e um pátio para as crianças brincarem. A professora morava em uma barraca, ao lado de um alicerce de uma muito pequena casa que tentava construir. Perguntei a ela porque construiu antes a escola e ela me disse: “lá eu beneficio muito mais gente que construir uma coisa só para mim. Passo o dia na escola e só venho aqui para dormir. Minha vida está lá e de lá vai sair gente que vai mudar esta situação, beneficiando muito mais gente.”
Amar é simples. Não requer teologia, filosofia ou qualquer outra “ia”. É ir e amar.

Marcos Inhauser

A SIMPLICIDADE DO AMOR

Acabo de entrar em um restaurante na Times Square. Na entrada há um cartaz que diz mais ou menos isto: "não sou nada inteligente, mas sei o que o amor significa".
Durante uma semana participei, juntamente com minha esposa, de uma conferência da Church of the Brethren, onde o tema central foi a luz, e vários dos conferencistas estabeleceram a relação da luz com o amor. Um deles foi enfático ao dizer: "se há amor há luz, se não há amor há trevas". A luz explícita as oportunidades e os meios de se amar.
Se associo o que li na entrada do restaurante com o que ouvi nas conferências devo dizer que ninguém está isento de amar. Quem trabalha com pessoas carentes afirma que eles têm muita demonstração de amor, um tipo de demonstração espontânea e incondicional.
Se o resumo das leis do Antigo Testamento (amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas) e do Novo Testamento (amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo), o amor é a essência da espiritualidade. Como diz Paulo, o apóstolo, sem amor nenhuma ação é válida.
Amar até os tolos conseguem. Os que se creem inteligentes racionalizam e inventam desvios e obstáculos para o amar simples e benéfico ao próximo. Amar não é questão de inteligência, mas de simplicidade, inocência e despojamento do eu e das barreiras.
Amor é doação do eu, do tempo, das habilidades, do carinho, do ouvir sem julgar, do que tenho e o outro necessita. A oração ensinada por Jesus coloca o pão como "nosso". O pão "meu" é pecado porque avarento e egoísta. No pão meu não há amor, mas racionalização impeditiva do que deve ser " nosso".
Para o amor não há contra-indicação, nem efeitos colaterais adversos. Só o benefício da felicidade de sentir útil e significativo.

Marcos Inhauser

A FÉ TEMPLARIA

Vivemos há séculos com a vinculação estreita entre o templo e o culto, ao ponto de, para muitos, não haver culto sem ser realizado no templo. As reuniões cúlticas fora dos templos recebem nomes outros, mas não o de culto.
Esta herança a devemos à religiosidade do antigo Israel onde, com a construção do tabernáculo e depois do templo, se associou de tal forma as duas coisas que passou a fazer parte do DNA das religiões. O mesmo se pode dizer do islamismo, onde as mesquitas são elementos centrais na vida religiosa e há a preeminência de uma sobre as demais: Meca. O mesmo se aplica ao catolicismo, com a centralidade da Basílica de São Pedro na cidade do Vaticano.
Há, contudo, algumas considerações que devem ser feitas quando isto ocorre. Não se imagina um santuário sem sacerdotes ou uma casta de gente dedicada ao serviço religioso. Por serem os “mediadores” entre a divindade e os humanos, estes recebem alta consideração e respeito por parte dos adoradores. A palavra por eles proferida, a instrução por eles dada, o ensino por eles ministrado, passam a ter a chancela da superioridade, da infalibilidade, da inquestionabilidade. O que falam, fazem ou ensinam estão acima de qualquer suspeita. As suas mensagens são Vox Dei.
Esta concepção dos “dedicados ao serviço religioso” (seja lá qual o título que se queira a eles dar) facilita o surgimento de uma verticalização: Deus-sacerdote/bispo/apóstolo/pastor-povo. O Supremo se comunica com os fiéis pela intermediação de “vocacionados”. Estes, por gozar desta reverência e funcionalidade, não raro, assume ares de ditador espiritual e deixam o seu lado narcísico aflorar. Colocam fotos suas nas fachadas dos templos, sonham em ter um horário na televisão para serem vistos por milhares, querem ouvir sua voz na rádio. Sua visão teológica (quando as tem, o que é raro), suas doutrinas (quando não são coleção de podes e não-podes, o que é o mais comum), sua administração (quase sempre egóica), produz um ditador que invade a vida das pessoas e, para espanto, até os mesmo os quartos de casal, ditando o permitido e o pecado.
Porque vivem de manter e incrementar seu poder, fabricam leis e multiplicam pecados, produzindo o sentimento de culpa em massa. Passam a ter prazer quase orgásmico em ver os fiéis se sentirem pecadores, indignos, merecedores do castigo divino. Oferecem assim seus préstamos de mediadores da benção e da graça, sempre aliado à contribuição do dízimo e das “ofertas de amor”. Empreendem programas mirabolantes, alugam horários televisivos a peso de ouro e, quando chega a hora de pagar a conta, ao invés de reconhecerem que exageram no sonho, responsabilizam os fiéis pela manutenção de suas megalomanias narcísicas.
Para manter o poder e dar asas ao narciso, os fiéis precisam ir ao templo. Se em Israel todo judeu devia ir ao templo uma vez ao ano, se o muçulmano deve ir a Meca uma vez na vida, nos modernos templos-gazofilácio os fiéis devem ir tantas vezes quantos os dias da semana. Prestam a reverência ao ditador/espiritual, pedem orações, recebem a benção e, infalivelmente, são constrangidos a deixar a “ben$ão para o $ustento da obra do $enhor”.
Sem o templo não há culto, sem o templo não há “vocacionados”, sem o templo não há salvação. Quanto maior for o templo, mais benção há. Por isto, os narcisos/ditadores/arrecadadores, precisam construir seus palácios: o templo de Salomão, o Santuário para quinze mil pessoas, o maior templo do mundo, a Casa de Deus. Fora do templo não há fé, milagre ou livramento.
Todos ao templo é o lema. Quanto maior o templo, mais bonito você está na fita e mais gratificado está o ditador/arrecadador.
A religiosidade não-institucional, não mediatizada, de pequenos grupos caseiros não é expressão de culto e fé. É subversão. Sem guru não há edificação.

Chegamos ao tempo em que o Espírito Santo pode ser aposentado!
Marcos Inhauser