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quinta-feira, 22 de junho de 2017

INVESTIGAÇÕES, MANTRAS E CONDENAÇÕES

Muitos já disseram que, em nenhuma outra época da história do Brasil, houve tanta investigação policial como o que se tem feito nos últimos três anos. Desde o início da Lava Jato muita gente foi investigada, muita coisa foi descoberta, nunca se teve tanta gente contando o que sabe em troca de redução das penas, nunca se devolveu tanto dinheiro roubado aos verdadeiros donos como tem acontecido nestes tempos.
Por outro lado, não se pode deixar de reconhecer o sentimento de “quase-impunidade” que reina entre os delatores. Basta delatar e entregar as provas que os crimes mais escabrosos são abençoados com uma punição simbólica. Isto quando a coisa não é o perdão completo pelos crimes cometidos.
Os delatados, investigados e réus têm mantras que repetem incessantemente, como se a repetição deles exorcizasse a pena merecida: “todas as contribuições foram feitas segundo a legislação”; “as contas foram aprovadas pela Justiça eleitoral”; “provarei minha inocência nos autos”; “minha vida sempre foi ética, transparente e conhecida de todos”; etc. Este é o mantra da auto-absolvição!
Outro mantra repetido por um e que ganha alguns adeptos é “não vi, não sei, não pedi, não autorizei, não tenho, não sou, aquilo é tralha, etc.”. É o mantra da negação.
Há ainda o mantra da terceirização: “nunca perguntei para ele de onde vinha o dinheiro”, “ele me deu o presente e eu o recebi”, “achei que era afruto do seu trabalho”, “era o pagamento da pensão que eu tinha direito”, “as despesas da campanha foram de responsabilidade do Beltrano”, etc.
Outro ainda é o mantra da vitimização: “isto é intriga da oposição”, “perseguição política contra minha pessoa”, “é a oligarquia querendo acabar com as conquistas dos pobres”, “querem me atribuir um crime que só existe na cabeça do meu acusador”, “foi um empréstimo de um amigo para me ajudar em uma situação difícil”, etc.
Diante dos investigadores e juiz há outros mantras: “reservo-me no direito de permanecer em silêncio”, “nada a declarar”, “só responderei às perguntas feitas pelos advogados de defesa”, “não respondo perguntas capciosas”, “eu não sei onde vossa excelência quer chegar com estas perguntas”, “o que este juízo quer é encontrar algo para provar o que, a priori, já definiram como sendo a verdade”.
Já tivemos alguns julgamentos simbólicos e históricos nestes últimos tempos. Talvez o mais exemplar foi o do TSE que, fazendo-se de cego e surdo, rejeitou provas legalmente colhidas e que incriminavam a chapa Dilma-Temer. O (ex?) senador Aécio está sendo julgado no momento em que escrevo estas linhas. O Temer será denunciado e será também julgado pelo Senado e, se não conseguir se safar com os 172 votos, será também julgado pelo STF. Mas e o Renan, Collor, Padilha, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Eunício, Guido Mantega, Palocci, Eduardo Cunha, Funaro, Sarney, e tantos outros? Quando serão julgados? Vão recitar os mesmos mantras ou vão assumir o discurso da delação, entregando o que sabem fizeram e ganharam?
Ou, para tentar escapar de vez, vão tramar nos corredores a anistia ao “caixa dois”, o “abuso de autoridade”, a impossibilidade de se investigar porque fere a privacidade dos criminosos, a acusação aos investigadores como torturadores emocionais de pobres vítimas, a recuperação de recursos ilícitos como sendo o abuso contra a propriedade privada?
Marcos Inhauser

quarta-feira, 14 de junho de 2017

AUTORIDADE E PODER


“A autoridade é a força moral que impõe direitos e obrigações às pessoas sobre as quais exerce sua autoridade. Isto se estende ao plano social, incluindo a família, a cidade, o Estado, a Igreja, etc. E se faz uma distinção entre a autoridade puramente moral que se impões pelo prestígio ou dignidade da pessoa que a detém, livremente reconhecida e a autoridade política, onde a força moral e a força física andam juntas.” (Idigoras, J. L. Vocabulário Teológico para América Latina, Ed. Paulinas, 1983, pg 22).
A citação feita tem ampla aplicação, mas falha ao se aplicar à atual situação brasileira. Ela reconhece a imposição da autoridade pela força moral ou física, mas o que se vê aqui é a imposição pelo conchavo, pelas alianças espúrias, pelos atos inescrupulosos sacramentados pelo mantra de que “deve-se manter a governabilidade”, mesmo que para isto se mantenha corruptos em postos chaves do governo.
Como diria outro pensador (Gene Sharp): “Por causa da dependência que tem de outras pessoas para fazer funcionar o sistema, o governante está continuamente sujeito à influência e restrição, tanto por parte de seus auxiliares diretos, quanto da população”.
A autoridade se mede pela obediência que lhe é prestada. Quanto mais obediência (forçada ou voluntária), mais autoridade tem. Só que a obediência pela força promove não a autoridade, mas o autoritarismo, forma desviante e ilegítima de autoridade. A autoridade que se preze se vale da obediência voluntária, pelo reconhecimento das qualidades morais e administrativas que tem.
Daí um conceito-chave: “se os súditos negam ao governante o direito de governar e mandar, estão retirando a concordância geral ... que torna possível o governo em questão. A perda da autoridade desencadeia a desintegração do poder do governante” (Gene Sharp em Poder, Luta e Defesa, Ed. Paulinas, pg 23). Ainda, do mesmo pensador: “só florescem a tirania onde o povo por ignorância ou por desorganização, ou por real conivência e cumplicidade, apoia e estimula o tirano e o conserva no poder, permitindo que as pessoas sejam instrumentos de sua coerção” (idem, pg. 40).
Alguém já disse que as autoridades são mais susceptíveis à egolatria, à crueldade e à corrupção. A tomar-se a história brasileira dos últimos decênios veremos a acuidade desta afirmação. Parece que assuem certo messianismo quando em suas posições de autoridade. Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer podem ser enquadrados nestes quesitos.
Neste contexto, o império da lei é a única proteção contra a usurpação do ditador e do demagogo. Ocorre que, no Brasil de hoje, ainda que haja lampejos de esperança quanto ao império da lei e da justiça, somos sobressaltados e ficamos escandalizados com certos ministros tabajara que atuam nas altas cortes, por juízes nominados pelo réu e que votam sem impedimento ético, mesmo tendo sido advogado da parte, com sentenças prolatadas sem dar a mínima para as provas levantadas, pelo subterfúgio da tecnicalidade de que estava “fora da inicial”.
Em nome da governabilidade, decide-se pela ambiguidade: apoiar um governo corrupto para ter as reformas saneadoras. Fala-se e prega-se a ética, mas evita-se disciplinar o senador flagrado com a mão na botija.
Diderot, o filósofo francês tem uma frase lapidar que vou parafrasear. A frase é: ‘Há menos inconvenientes em ser louco entre loucos, do que ser sábio sozinho”.
Há menos inconvenientes em ser corrupto em meio de corruptos, do que ser honesto sozinho. Esta é a máxima da política e dos políticos brasileiros.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 7 de junho de 2017

VULCÕES POLÍTICOS


Na Costa Rica há um vulcão, Poas, que está em constante erupção, mas que não chega a derramar lavas para fora. É possível visitar, chegar à borda e ver o lago de coisa incandescente lá no fundo. É um parque turístico e muitos para lá vão. Ocorre que há dias em que a visitação está proibida porque, ainda que não lance lavas, lança pedras de tamanhos variados e quentes, que podem machucar. No caminho até à borda se encontra muitas destas pedras.

Em El Salvador há o lago de Ilopango que, segundo dizem, é um vulcão extinto que se encheu de água e hoje é um lago. O mesmo acontece com o de Mohanda, no Equador, que dá para entrar de carro dentro dele e nadar no lago que ali se formou. Da mesma forma o lago de Cuicocha.

Há vulcões e vulcões. Como brasileiros, ainda que não tenhamos nenhum vulcão ativo, vivemos em meio aos sismos provocados pelas erupções do vulcão político. Este vulcão esteve por muitos anos quieto, acumulando água e se pensava que suas águas eram calmas e que nada aconteceria. Houve, no entanto, um dia em que um sismo mostrou que a coisa poderia mudar de figura. Foi um vídeo gravado por um funcionário do correio relatando um esquema de falcatruas. As águas calmas do fundo do vulcão se movimentaram e houve quem quis garantir que voltariam ao normal em breve, que era marola.

A marola virou onda e as águas esquentaram e jogaram para foram algumas lavas e pedras, que machucaram os que muito perto dele estavam: foi a erupção do mensalão. Saiu pedra de todo lado, água fervente e muitos se queimaram, mas nem todos. Uns mais, outros menos, mas o vulcão fez sua obra de abalo parcial.

Depois de um tempo, tudo parecia que voltaria ao normal. Tal como no Poas. Dava até para visitar e ir fazer turismo à sua borda. De repente, uma lava veio como jato. Sismólogos e vulcanólogos perceberam que a coisa era feia e começaram a monitorar os microssismos, a temperatura interior e viram que a coisa explodiria a qualquer hora. Primeiro foram as explosões dos gerentes da Petrobrás que delataram a temperatura interna das falcatruas. Os menos avisados e os interessados em acalmar o público disseram que era mais fumaça que erupção.

Veio a delação dos executivos. Setenta e sete explosões que lançaram lava a jato para todos os quadrantes. Achava-se que era a erupção do fim-do-mundo. Não era.

Quando avaliaram os estragos destas setenta e sete explosões, tentaram dizer que os danos estavam sob controle, mesmo tendo atingido os pilares da política. Parecia que o vulcão se aquietava. Que nada. Lá veio a erupção (ou devo dizer “corruerupção”) da JBS e J&F. Foi lava prá todo lado, queimando e machucando meio mundo.

Tal o tamanho da erupção que até o presidente e o seu amigo de “extrema confiança”, mais o mineiro até então impoluto, saíram queimadíssimos. Oitenta e tantas pedradas foram arremessadas prá cabeça do Temer na forma de perguntas que a PF lhe enviou.

Mas ontem à noite, com hora marcada e televisionamento, mais uma erupção do vulcão: o julgamento da chapa Dilma-Temer. Ainda não se sabe o tamanho desta erupção, mas gostaria que fosse como os vulcões Kilawea, o Krakatoa, o Popocatépetl que lançam para fora as lavas. No nosso caso, que sejam lançados para fora as sujeiras e os corruptos, que saiam queimados para nunca mais voltar.
Marcos Inhauser

quarta-feira, 24 de maio de 2017

COELET E OS 40


Há 40 anos, na última segunda-feira, dia 22, fui ordenado ao ministério pelo Presbitério Norte de São Paulo. Não celebrei a data e ninguém a celebrou. D minha parte não celebrei e tenho razões para isto.

A razão maior é que estou em período em que estou vivenciando a experiência do Coelet, o Pregador do livro bíblico do Eclesiastes. Já escrevi aqui, há algum tempo, que o Coelet é quem valida uma “espiritualidade da depressão”. Não acho que estou deprimido, mas estou, sim, frustrado, decepcionado, envergonhado, magoado, bravo e desanimado (FDEMBD).

Estou FDEMBD com a situação do meu país. Eu imaginava que a coisa estava ruim, mas não que a podridão tivesse alcançado os níveis e as autoridades que alcançou. Estou FDEMBD com os políticos do meu país, inclusive com os que ajudei eleger, porque esperei deles algo muito diferente do que estão sendo e entregando. Estou FDEMBD com o cinismo das pessoas públicas que têm a coragem de negar o batom na cueca. Estou FDEMBD com o STF que solta o Eike, o Zé Dirceu, que tem ministro que inocenta o Maluf, que rasga a Constituição no processo de impeachment. Estou FDEMBD com o Judiciário pelas idas e vindas, sentenças e liminares, que joga a coisa numa ciranda que vence quem tem o melhor advogado, o mai$ bem pago. Estou FDEMBD com a Lava Jato que anda dando sentenças ínfimas para quem cometeu crimes máximos. Estou FDEMBD com A PGR que dá impunibilidade aos irmãos Batista, no que pese terem comprado o Brasil e os deputados com suas propinas e maracutaias.

Estou FDEMBD com a “igreja brasileira” porque, salvo honrosas exceções, sucumbiram ao modelo de mercado. Ou fazem a coisa para o gosto do público e para encher templos, ou fazem as coisas numa sucessão de eventos, onde a igreja é “uma fábrica de eventos”: jantares, gincanas, acampamentos, encontros deste ou daquele grupo, etc. Estou FDEMBD com um monte de gente que se chama pastor, que nunca passou por um treinamento teológico sério, que se achou bom orador, que nunca passou por uma cerimônia bíblica de ordenação e que envergonham algo que tem sua origem na vocação divina.

Estou FDEMBD com alguns com quem gastei tempo ensinando, dei do meu tempo, investi até financeiramente e que resultaram em perda total ou em vergonha para mim e para o evangelho. Gente que treinei para ser pastor e que virou bandido. Estou FDEMBD com alguns membros de igreja que trocam a comunhão dos irmãos na reunião da igreja por qualquer coisa de somenos. Estou FDEMBD com quem me critica porque me acham radical, veemente, profético ao estilo jeremias,

No entanto, nestes 40 anos, tive meus bons momentos e recordá-los me dá ânimo para seguir adiante, mesmo porque, tenho absoluta certeza, a vocação que tenho é irresistível e, por mais que queira deixá-la (e já tentei), tal como Jeremias “como me calar se tua voz me queima aqui dentro?” Nestes 40 anos tenho gente que ensinei, pastoreei, me fiz confidente e que me dão a alegria do respeito, do carinho e da acolhida. Tenho Igrejas e famílias que me recebem de braços abertos, onde me sinto amado e percebo que não trabalhei em vão.

Plantei flores e me arranhei com os espinhos. Semeei espinhos é verdade, mas sempre na firme convicção do exercício do profético enquanto denúncia. Acho que demorei muito tempo para reconhecer a graça de Deus no meu ministério e na vida das pessoas. O fardo do ministério se tornou mais leve a partir da dimensão da graça. Se estivesse ainda pregando e ensinando a justiça retributiva, teria sucumbido.

Não tenho ânimo para celebrar os 40 anos de ordenação ao ministério, por mais significativo que isto tenha sido para a minha vida. O que, sim, faço é agradecer a Deus por me manter em pé nestes anos, apesar do tropeços e erro, da descrença costumeira nos momentos de crise, e por me ter usado quando nada em mim servia. Como diz um hino: “se Tu podes usar qualquer coisa, Deus, usa-me! Esta é a minha oração!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 17 de maio de 2017

OS REIS TEMER E ASA

Todas as vezes que ouço notícias das reformas que o presidente Temer pretende fazer na previdência e trabalhista, não consigo deixar de pensar em um rei bíblico: o rei Asa. Sem querer descer aos detalhes da sua vida e obra, uma vez que há muitos dados para serem considerados, quero ressaltar aqui que o rei Asa foi uma pessoa que teve bons propósitos para seu reinado.
Assumiu em momento difícil para a nação. Havia muita tensão com o reino do Norte, teve que fazer alianças para sobreviver politicamente, mas, animado pela palavra profética de Azarias, promoveu reformas profundas. Tal foi seu comprometimento em fazer o que era certo, que não teve dúvidas em destituir sua mãe, a rainha-mãe Maacá de sua dignidade porque ela havia construído algo abominável em homenagem a Aserá. Também não teve escrúpulos em pegar os tesouros do templo para pagar a Ben-Hadade para que desfizesse a aliança com Israel.
No entanto, a narrativa bíblica coloca senões na sua atuação: os altos e os postes ídolos não foram retirados ou derrubados. Teve excelente ímpeto em um monte de coisas, mas deixou ou cedeu às pressões quanto aos postes ídolos e altos, onde se cultuava os deuses da fertilidade.
Ainda que as semelhanças não sejam exatas, há entre o Temer e o rei Asa algumas coisas que podem ser assinaladas. Não duvido das boas intenções do Temer. Duvido de seus auxiliares (vários deles já derrubados por problemas com a Lava Jato) e das alianças que faz para conseguir o que quer, nem que para isto tenha que saquear os tesouros do templo (tesouro nacional). Duvido também da sua constância em perseguir os objetivos que se propôs, uma vez que tem mudado de opinião cada vez que pisca os olhos.
Assim como o rei Asa, ele teve que destronar a rainha para que pudesse ter domínio completo. A Maacá do Temer foi derrubada e destituída porque, no seu entender e no entender dos seus auxiliares, havia ela construído uma abominável estátua a Aserá (aqui, no caso, à corrupção).
Tal como o rei Asa, sua disposição inicial era fazer todas as reformas necessárias, doesse a quem doesse. Veio com o ímpeto de um canhão, pronto a derrubar o edifício existente e construir coisa nova. Tal qual Asa, no decorrer das tratativas para a reforma radical, foi cedendo à Polícia Federal, aos militares, à polícia civil, à polícia legislativa. Os altos e os postes-ídolos da nação ficaram de fora da reforma da Previdência. Se no tempo do rei Asa era o culto à fertilidade que o demoveu da reforma completa a radical, com o Temer parece que é o culto à farda que o tem demovido de realizar o que havia prometido inicialmente.
Assim como Asa que teve que fazer alianças para não ver seu reinado destruído pelo reino do Norte, o Temer também vai ter que buscar alianças, mesmo que saqueando o templo, para não ser destronado pelo TSE. Se o rei Asa buscou Ben-Hadade, temo que o Temer busque a aliança com o Gilmar Mendes para salvar seu mandato.
É verdade que em ambos os casos houve tempos de paz, no que pese as muitas frentes de batalha que travaram. No que pese o momento delicado da política nacional, deve-se dizer que, dadas as circunstâncias, há relativa paz social. Mas também é verdade que ambos sonharam em parir um dinossauro, mas pariram lagartixas. Entre o prometido e o entregado, houve e há muita distância.

Marcos Inhauser

A IGREJA DO PASSADO E DO PRESENTE

Duas grandes ameaças pesavam sobre a Igreja primitiva: o poder imperial e líderes heréticos. A primeira tinha conotações políticas, porque o poder central percebeu que estava ameaçado por um grupo de fanáticos que se recusavam a dizer “César é Senhor.”
Infiltraram espiões e concluiram que os cristãos celebravam o ágape ou “festa do amor”, que se chamavam de irmãos e irmãs e que comiam do corpo e bebiam do sangue de Jesus Cristo. Do alto de sua sabedoria político-filosófica concluíram que os cristãos promoviam orgias sexuais em suas festas do amor, praticavam o incesto porque se chamavam de irmãos e irmãs nestes banquetes orgiásticos e praticavam a antropofagia, porque comiam do corpo e bebiam do sangue de Jesus.
O império alertou a todos e divulgou o perigo que esta nova seita representava para os projetos políticos do César. Cabeças rolaram, gente inocente foi crucificada, comida pelos leões, queimada, serradas ao meio.
A segunda ameaça era interna e tinha elementos político-teológicos. A igreja tinha sido fundada pelos alunos do “Seminário Teológico de Jesus, um curso teológico e prático de três anos, receberam a ordenação ministerial pela descida do Espírito Santo e houve alguém que se extraviou e traiu a causa do evangelho. Zelosos que eram da sã doutrina, procuravam transmitir as coisas com fidelidade, tal qual haviam aprendido do Mestre.
Mas, eis que surge, lá não se sabe de onde, nem como, outro apóstolo, nascido fora de tempo. Paulo era o seu nome.
Ele ensinava a graça que liberta da escravidão da lei. Os alunos do Seminário, por terem recebido aulas do próprio Mestre e por terem um background judeu, viram com restrição os ensinos deste também judeu, só que renegador das tradições da religiosidade judaico/cristã. A coisa esquentou a tal ponto que fizeram um concílio em Jerusalém para decidir se Paulo era ou não verdadeiro apóstolo. Depois de muita saliva, chegaram a um acordo salomônico: Paulo é apóstolo, prega a verdade, mas deve ensinar algumas coisas como não comer sangue, não ter relações sexuais ilícitas, etc. e tal.
Ocorre que Paulo não foi o único herege” que surgiu. Começaram a aparecer aqui e ali profetas, profetisas, apóstolos, mestres, sábios, ex-qualquer-coisa e todos se julgavam donos da verdade. A quase totalidade deles não se sabia com quem havia aprendido.
Havia os que negavam partes da Bíblia, como era o caso de Marcião que desprezava o Antigo Testamento, havia os que enfatizavam os dons, como era o caso de Apolo que criou uma tremenda confusão em Corinto, havia os profetizadores, os que se perdiam em discussões genealógicas, outros que falavam mais de demônios que de anjos, outros que fabricavam uma lista interminável de “pode” e “não pode”. Havia também os milagreiros, os mercadores da palavra, os que no dizer de Pedro, “faziam comércio dos crentes”, os que negavam a humanidade de Jesus e os que sustentavam o adocionismo. Era um supermercado de doutrinas, uma para cada gosto e para cada comichão de ouvidos.
É neste contexto que alguns dos escritores neo-testamentários escreveram suas epístolas, preocupados que estavam com o futuro da Igreja. É o caso de Judas que alertava a igreja quanto aos que “se introduziram no nosso meio, que convertem em dissolução a graça de Deus... que contaminam a carne, rejeitam as autoridades, que são como manchas em vossas festas de amor, pastores que a si mesmos se apascentam”. É o caso de I João alertando quanto aos que diziam que não mais pecavam.
É o caso de Pedro em suas duas epístolas. Pedro, um dos alunos do Seminário de Jesus, preocupado com a desaparição precoce de seus colegas de turma, quase todos eles martirizados, e também preocupado com a investida, de verdadeiras fábricas de heresia, pessoas que surgiam de não se sabe onde, que não haviam estudado com ninguém, mestres de si mesmos.

Parece que as coisas não mudaram.  Dois mil anos de eterna repetição das mesmas heresias.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

TEMPOS DE DILÚVIO

Tenho lá meus pruridos para ler certos textos bíblicos como historiográficos, como descrição de fatos reais acontecidos no passado. Quando se faz esta leitura mais literalista das narrativas, perde-se um universo de possibilidades de interpretações e lições que as estórias nos trazem. Neste meu espaço como colunista há quase 19 anos, por várias vezes já fiz esta colocação.
Quero trazer à consideração a narrativa de Noé, sua arca, o momento em que viveu e as providências que tomou. A narrativa diz que o SENHOR viu que a maldade se havia multiplicado e que era continuamente mau todo desígnio do coração humano. A pergunta que se impõe é se isto é algo que vale para o passado ou é algo que vemos e encontramos ainda hoje?
A julgar pelo que se está conhecendo pelas revelações feitas pelos delatores, pelas descobertas da PF e MPF, estamos vivendo tempos iguais aos que Noé viveu, tal o grau de promiscuidade e corrupção reinantes. A maldade tem se multiplicado, mostrando os desígnios escabrosos daqueles que se apresentaram ao público, pediram votos para defender os interesses da população. Sabe-se que o modelo eleitoral via propaganda pela TV é viciado e corruptor. Não se conseguirá mudar a representação política enquanto tal sistema existir, onde verbas milionárias abastecem campanhas dos que tem mais chances de vencer.
A esta altura vem a segunda afirmação da narrativa: Deus se arrependeu de ter feito o homem e isso lhe pesou no coração. O texto apresenta um Deus humano, com sentimento humano. Quem não se arrependeu de ter votado neste ou naquele? Quem nunca teve vontade de aniquilar os que roubam o povo e aparecem engravatados com discursos de ética e moralidade?
Isto foi o que Deus decidiu fazer: “farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito”. Decisão radical. Quisera eu ter o poder de determinar o extermínio da classe política e dos que se locupletam com a coisa pública. Há que notar-se que a corrupção que havia nos tempos de Noé tinha implicações e consequências sistêmicas, A maldade do coração afetava toda a criação. A corrupção de vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e presidentes afeta toda a criação. Quantos há que não tem médico, escola, merenda escolar com comida estragada, remédios vitais para a manutenção da vida não sendo comprados, museus abandonados, carne fraca e suas artimanhas para renovar prazos de validade, leite contaminado com soda cáustica, etc. Até o tamanho do Sonho de Valsa diminuiu e o preço aumentou.
Neste cipoal de desgraças, houve um que achou graça diante de Deus. Noé: homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos e que andava com Deus. Quem é o Noé nestes tempos de Brasil? Os deputados da bancada evangélica estão gastando mais tempo lendo processos e código penal que a Bíblia. O “evangélico” Eduardo Cunha agora tem tempo para ler a Bíblia, mas continua arrogante e petulante como sempre foi.
Estamos em tempos de dilúvio. Foram quarente das de chuva e estamos neste período paradigmático. O número 40 na Bíblia é símbolo de provação, e estamos neste tempo. Temos lama de todos os lados. A coisa não parece arrefecer. Mas haverá o momento em que a pomba solta voltará com um ramo no bico, avisando que há sinal de vida decente lá fora.
Até lá, esperemos, participemos, construamos nossas arcas e convidemos a ela os que são nossos, tal como fez Noé que fez entrar seus três filhos e suas esposas. A salvação se deu na dimensão familiar.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O CONCEITO DE DEUS É DECISIVO


Recebi o seguinte artigo do amigo teólogo Paulo Ruckert que aqui publico com algumas edições para que caiba no espaço.
Não devemos conceituar Deus assim como definimos objetos. Precisamos ter uma compreensão correta de Deus, para podermos nos relacionar com ele. Sem isto, toda a nossa teologia estará sendo construída sobre a areia.
Explico. Quando ingressei na faculdade de teologia o modismo da época era a “teologia da morte de Deus”. Já é perturbador deparar-se com o silêncio de Deus; o salmista grita para que Deus acorde e se levante. Mas a “morte de Deus” chega a ser desoladora. Nesse caso, nem adianta gritar.
Depois entendi que esse modismo teológico partia de um conceito de Deus inventado pelos ingleses e divulgado pelo filósofo Voltaire, conhecido pelo nome de Deísmo. Sem ele como ponto de partida, a “teologia da morte de Deus” perde a sustentação e cai no vazio. Há quatro modalidades que a humanidade tem adotado para se relacionar com Deus.
No seu relacionamento com Deus, o hebreu vivenciou um paradoxo: Iahweh é imanente e transcendente: ele está dentro do mundo e também fora dele. Tudo está sujeito à vontade divina, também os acontecimentos perturbadores. 
A partir dessa compreensão de Deus que o AT nos legou e que Jesus vivenciou integralmente, podemos estabelecer uma análise das quatro principais maneiras que a humanidade tem formulado para se relacionar com o divino.
O panteísmo dissolve Deus na natureza. Todos os seres vivos, incluindo os vegetais, são considerados uma manifestação de Deus. O universo todo é divino.
O deísmo é uma religião da razão. O argumento da existência de Deus é racional. O deísmo postula que Deus deu origem ao mundo e estabeleceu as leis da natureza.
O teísmo pressupõe Deus fora do universo. Deus é considerado uma pessoa celeste e perfeita, que passou a se situar fora e distante da humanidade. Ele se encontra acima do mundo e da humanidade. Deus está isolado desta realidade.
O panenteísmo declara que Deus está no mundo e o mundo está em Deus. Formado por três vocábulos gregos: pan (tudo), en (em) e teísmo (Deus) = Deus e o mundo estão inter-relacionados. Há equilíbrio entre imanência e transcendência de Deus. Deus é imanente como Criador, mas é transcendente em sua liberdade. Deus é infinito e não pode ser confundido com os seres finitos. Deus está presente em toda a realidade. Sendo Deus infinito, nada existe “fora” dEle. Deus não se esgota na realidade presente. Criou o mundo e continua criando ainda hoje.
O panenteísmo constata que Deus age e reage. Quando o povo se corrompeu fabricando o bezerro de ouro, Deus decidiu eliminar os idólatras e começar uma grande nação a partir de Moisés. No entanto, o líder do povo intercedeu, colocando-se “na brecha” (Sl 106,23) e bloqueando a execução do juízo. Diante da intercessão, “se arrependeu o Senhor do mal que dissera havia de fazer ao povo” (Ex 32,14). Deus age e reage. O Deus vivo e dinâmico não está somente “lá fora”, observando os acontecimentos. Ele atua dentro do processo da realidade e interage com o que acontece, podendo até voltar atrás e reconsiderar o curso dos acontecimentos. Deus atua na realidade e os acontecimentos provocam uma reação em Deus.
Se Deus não reagisse aos acontecimentos, redirecionando o seu desígnio, então todas as nossas orações seriam um falar no vazio. Mas, nós podemos contar um Deus vivo, dinâmico e atuante. Assim como o salmista, nós podemos contar com a intervenção divina na realidade, mudando a sorte do seu povo. Podemos esperar e confiar no agir de Deus.
Paulo Ruckert


PS - O texto completo pode ser solicitado por e-mail para marcos@inhauser.com.br

quarta-feira, 12 de abril de 2017

POLÍTICOS JURÁSSICOS

A votação feita na semana passada para “regulamentação” do transporte privado alternativo (Uber, 99, Cabify) foi a mais completa exibição da mentalidade retrógrada e notarialista da política brasileira. Quando havia possibilidade de se avançar nas relações de negócio entre dois parceiros (fornecedor e cliente), veio a Câmara e, com a mentalidade dos tempos dos dinossauros, decidiu pelo engessamento, cartorialização, imposição fiscal e encarecimento dos serviços.
Os novos tempos trouxeram a novidade de serviços um-a-um. Aí está o comércio eletrônico feito no Facebook, no Mercado Livre e outras plataformas. Aí está o AirBnb e outros que facilitam o aluguel de casas, apartamentos, pousadas para temporadas. Aí está o Submarino Viagens e outros onde se pode comprar passagens, fazer reservas de carro e de hotel, sem precisar de uma agência de viagens ou mesmo sair da casa. Aí está o Online Banking que dá a chance de fazer quase tudo sem sair de casa.
Em todas estas plataformas houve problemas, mas eles foram dirimidos e as coisas fluem. Não há nada perfeito e nada que os bandidos não tenham uma forma de tirar proveito. Até dos bancos eles conseguem tirar.
Há o serviço de taxi regular. Para se poder ter um é necessária uma licença e, para obtê-la, ou se compra de alguém que a tenha (a peso de ouro) ou se espera a abertura de novas licenças, coisa quase impossível de acontecer, porque os próprios taxistas não querem que haja mais taxis na praça. Quando se abre, é um deus-nos-acuda para driblar os espertinhos e os que tem seus canais. Com todo este “rigor”, não se entende como uma mesma pessoa pode ter vários carros ou uma frota de taxi. Também não se entende que tipo de fiscalização existe, uma vez que abundam os taxis clandestinos, os mal cuidados, com problemas mecânicos, etc. Cansei de pegar taxi na Rodoviária para vir para minha casa que eu nunca dirigiria no estado em que se encontrava. A cada pouco se sabe de bandidos travestidos de taxistas em carros caracterizados. A caracterização do taxi, a placa vermelha, o taxímetro e um número não são garantia absoluta.
Aparece o Uber, 99 Taxi, Cabify e outros. Eles fazem um serviço mais direto, mais rápido, menos complicado. Você liga e em prazo de 2 minutos estão te pegando. Quando você chama já vem uma estimativa de preço, o carro, marca, cor, placa e o nome do motorista, coisa que nunca tive no serviço regular de taxis. Mais: estando cadastrado, o pagamento é feito no débito no cartão, sem necessidade de qualquer papel ou assinatura. Em outras palavras: simplicidade, eficiência, rapidez e transparência.
Aí vem os políticos jurássicos, pressionados pelo cartel dos que nadaram na exclusividade até hoje, que mostraram que alguns são bandidos nos atos de violência contra motoristas alternativos, e exigem que os alternativos se igualem aos “oficiais”.  Por que não desburocratizar a classe dos que mamaram toda a vida e colocá-los nas mesmas condições dos demais? Não seria o caso de liberar?
Mas isto traria prejuízo porque tem placa de taxi que vale (valia) um milhão, como me contou um taxista do aeroporto. Para ter um carro ali precisava comprar uma licença. Mais: compram carro com isenção e liberar para atuarem sem caracterização seria perder esta mamata. Os demais trabalham mais barato, sem ter a isenção do IPI para comprar seus carros. Quanto dá de lucro um carro na praça? Deve ser muito porque ninguém quer largar o osso.
Os políticos, por sua vez, agradaram os sindicatos da categoria e usarão da capilaridade deles nas suas campanhas políticas. E de retrocesso em retrocesso avançamos para o tempo das capitanias.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 5 de abril de 2017

SOBRAM TOSQUIADORES

A metáfora é bíblica. Comparar a igreja com um rebanho com seu pastor é algo que faz parte do imaginário dos leitores bíblicos. Que o pastor tenha a seu cargo o cuidar das ovelhas é o que a Bíblia ensina. No entanto, nestes dias, a coisa anda complicada. Os que deveriam cuidar das ovelhas, só olham para elas para saber quanta lã têm e como tosquiá-las! Mais que preocupadas com o bem-estar de suas ovelhas, preocupam-se em quanto elas podem render no faturamento.
Para se ter uma ideia da coisa, conto aqui alguns fatos verídicos, ocorridos há não muito tempo. Um casal jovem, com uns dois anos de casado, ele criado na igreja, ela não, decidem ir a quatro igrejas diferentes para saber em qual delas eles se sentiriam melhor para frequentar assiduamente. Depois das visitas, perguntei a eles o que haviam decidido. A resposta deles: nenhuma! Queremos uma Igreja é não um camelódromo onde o pastor vende de tudo, de Bíblia a CDs, passando por livros e camisetas. Nas outras ouvimos e cantamos alguns louvores e depois foi só pedido de dinheiro para pagar o programa de televisão, o telhado da Igreja, a ampliação do templo.
Em outra igreja, em Campinas, o animador de auditório que deveria ser o pregador e que se chama de pastor, contou que tinha ido visitar uma igreja em outra cidade e que, no meio do louvor, uma pessoa ficou endemoninhada. Foi trazida ao púlpito (prá mim era palco!). O pastor disse que aquele demônio pegava em crente não-dizimista. Depois de um salseiro, com direito à entrevista do demônio, o “pastor” disse: “vou mostrar o que o demônio faz com o dinheiro de quem não é dizimista”. Deu a ele uma nota de R$ 2,00 e a pessoa endemoninhada trucidou a nota, fazendo-a em pedaços. Veio o sermão sobre o não dar o dízimo: “o diabo destrói o que você ganhou, rasga, faz picadinho da sua vida e finanças, pense no como estão suas contas você que não é dizimista e você vai concordar comigo”.
Em seguida, pediu que os dizimistas da igreja (plateia) se identificassem e pediu que um deles trouxesse à frente uma nota, de preferência de R$ 100,00. Apareceu alguém. O “entrevistador de demônio” deu a nota ao endemoninhado e ele a beijou, colocou sobre o coração e cuidou dela com carinho. Lá veio a mensagem: “quando a pessoa é dizimista o demônio não tem o poder de destruir as finanças e o dinheiro, antes cuida dele com carinho”. Dou um picolé para quem disser que, em seguida, o animador de auditório fez a coleta das ofertas na igreja. Este “tristemunho” foi contado pelo animador-visitante, agora em sua igreja, para ali também “motivar os fiéis ao dízimo”.
Em outra igreja, também em Campinas, o arrecadador de plantão desafiava os presentes a ofertar R$ 1.000,00. Depois baixou para R$ 500,00, depois R$ 200,00. A esta altura uma senhora que a conheço muito bem e que estava em sérias penúrias, foi à frente. O arrecadador disse a ela em alto e bom som: “a irmã deposite aqui a sua oferta”. “Eu não o tenho, mas gostaria de poder contribuir e quero que o pastor ore por mim para que, da próxima vez ,eu possa vir à frente e entregar a oferta para a Igreja”. Ele, de público a ofendeu e a expulsou do palco.
Não são pastores: são tosquiadores de ovelhas, não importa quanta lã tenham para ser cortada. Cortam o que têm, nem que sejam fiapos!

Marcos Inhauser

quarta-feira, 29 de março de 2017

FALTAM PASTORES

Estou no pastorado há 44 anos. Já vi muita coisa, conheci pastores exemplares como foram o Joás Dias de Araujo, o Nephtali Vieira Junior, Naor Garcia entre outros. Há no pastorado, no dizer do Rev. Joás, um mistério. Eu acrescentava que é um mistério místico. Há uma mística na vocação, na imposição das mãos para a ordenação e no próprio desenvolver do ministério pastoral.
O pastorado é a vocação para o trabalho com pessoas, com tal intensidade e autoridade que pode e muitas vezes entra nos detalhes da vida pessoal e até íntima da vida dos fiéis. Não é só o pregar. Este é um dos trabalhos e talvez o de menos importância e de resultados comprovadamente baixos. Pergunte a uma pessoa na segunda-feira qual foi o tema do sermão pregado na igreja e certamente você escutará com muita frequência: “não lembro”.  OO aconselhamento pessoal, familiar, conjugal, a orientação de jovens e adolescentes, o ensino de valores éticos e morais, a confissão espontânea de pecados, a conversa onde as dúvidas bíblica e teológica surgem, o visitar enfermos, famílias, estar presente nos momentos marcantes da família e nos ritos de passagem, são alguns dos aspectos que diziam/dizem respeito ao trabalho pastoral.
Acontece que os tempos mudaram e a sociedade também. Já não é tão fácil visitar as famílias em suas casas, uma vez que muitas delas se encontram fechadas a maior parte do tempo. Lembro-me da primeira igreja que pastoreei nos Estados Unidos e que, ligando para os telefones dos membros, fazia um pastorado de secretária eletrônica. O que era uma celebração para muitos, hoje, o receber o pastor para uma visita pode ser um incômodo por ser o horário quando a família, que esteve separada durante todo o dia, tem agora para se reunir e conversar.
O trabalho do pastor como conselheiro foi cedendo espaço para os psicólogos, psicanalistas e outros profissionais. Antes não se exigia do pastor conhecimentos mais profundos sobre o ser humano e suas relações. Hoje precisa estudar várias linhas para poder fazer um trabalho significativo.
Os pastores pastoreavam comunidades onde ele conhecia a todos pelo nome. Era o pastor que sabia da vida de cada ovelha. Com o advento das mega-igrejas, os pastores perderam o contato pessoal com a membresia. De pastores passaram a ser animadores de auditórios, as suas congregações se transformaram em plateia, de doutrinadores passaram a ser motivadores. O evangelho do “cada um tome a sua cruz” foi banalizado, para um evangelho da graça barata, da vida cristã anônima, individualista, solitária. É a comunhão comigo mesmo. A membresia e fidelidade a uma congregação foi substituída pelo turismo eclesiástico. A participação fiel a uma congregação local foi trocada pelas igrejas de grife.
De doutrinadores, hoje muitos são apeladores (no mais negativo sentido da palavra). Vivem de fazer apelos para que os presentes contribuam acima do que haviam se disposto a fazer. Deixam de dar com alegria para serem contribuidores constrangido. Inventam símbolos, eventos, programas com o fim de “motivar” a contribuir.
O servo da comunidade se transformou e ganhou títulos pomposos de apóstolos e quejandas. O serviço anônimo ao próximo cedeu espaço ao tempo televisivo pago a peso de outro. O mistério místico do pastorado virou narcisismo midiático.
Faltam pastores. Sobram animadores de plateia, arrecadadores, show-men.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 22 de março de 2017

FALTAM LÍDERES

Acho que nunca se falou tanto em formar líderes, nunca se deu tanto treinamento nas empresas para capacitar líderes e nunca estivemos tão necessitados deles. No que se refere ao político, a coisa fica ainda mais feia.
Se se toma uma das premissas básicas da liderança que a de que o líder deve ser exemplo, dá para entender porque estamos faltos de liderança. Depois de Tancredo, tivemos uma sucessão de pessoas investidas na mais alta posição da nação, mas que não puderam ser exemplos. Com a morte do Tancredo, tivemos ascensão de um especialista em surf: vivia na crista da onda e assim ficou até que não mais conseguiu se eleger pelo estado onde nunca morou: o Amapá. Era a sua mentira pública. Outros atos e fatos conspurcaram-lhe a biografia e só foi exemplo para gente do senado e Câmara que aprendeu com eles as patranhas da política. Como legado deixou o Plano Cruzado e uma inflação astronômica.
Sucedido pelo nada exemplar Collor, com sua altivez e arrogância, aliado às maracutaias de seu tesoureiro, foi defenestrado e impedido de se eleger por oito anos. Voltou, mas vive período em que deve muitas explicações ao judiciário brasileiro.
No seu lugar subiu o Itamar Franco quem, não tendo sido eleito, teve um mandato que, se não teve acusações, também não teve o brilho que se espera de uma liderança. Sucedido por Fernando Henrique Cardoso que tinha o brilho do acadêmico, mas não tinha o carisma da liderança. Governou, nunca explicou muito bem como foram feitas as privatizações que, segundo um ministro do seu governo, raiaram à irresponsabilidade. Dava sono quando se dirigia à nação.
Veio o Lula e a Dilma e ambos não são exemplos de liderança. O primeiro o foi no primeiro mandato, mas perdeu a legitimidade com o mensalão e mais tarde com a Lava Jato. A Dilma também não é exemplo de liderança. Veio o Temer que de líder não tem nada. Pusilânime, volúvel, nunca se sabe o que pensa. Como disse uma jornalista, quando perguntada sobre qual o posicionamento dele sobre um assunto: “antes da última piscada de olhos dele, ele era a favor”.
Estamos entrando na reta para as eleições de 2018. Ao olhar ao redor e as candidaturas que estão sendo sugeridas ou pleiteadas, me leva à conclusão de que teremos um cenário desolador. Mais uma vez teremos que optar pelo menos pior. As opções do mundo político (Lula, Ciro Gomes, Alckmin, Serra) são farinha do mesmo saco. Com a exceção do Ciro (ainda), todos os demais têm suas explicações a dar na Lava Jato.
Das figuras que estão correndo por fora do páreo (Doria e Meirelles), a ambos lhes falta o carisma da liderança. Podem estar fazendo (talvez) algumas coisas, mas isto não é o suficiente. É verdade que precisamos de um bom administrador, mas no tipo de presidencialismo brasileiro, um presidente sem base parlamentar é transformar o governo em balcão de negociatas. Vide Collor, Dilma e Temer.
Uma reforma política significativa e estrutural é milagre que não vai acontecer. A propalada reforma eleitoral, se algo fizer, será cosmética. No andar da carruagem, as alterações visarão proteger com o foro privilegiado os que devem muitas explicações. Como a “carne é fraca”, fizeram merenda eleitoral com carne podre e carcaça de cabeça de porco. Nem ácido ascórbico salva.
Ao povo cabe clamar aos céus para que algo aconteça e um verdadeiro líder apareça. Que no frigorífico das eleições não haja carne podre. Está é a minha oração.

Marcos Inhauser

terça-feira, 14 de março de 2017

CRIMINOSOS COM O PODER DA CANETA

Há algo no ar que me inquieta. São sinais aparentemente contraditórios que, a meu ver, merecem ser melhor analisados. Não os mencionarei por ordem cronológica, mas segundo uma ordem própria.
O primeiro sinal é relacionado à soltura do goleiro Bruno, implicado no crime da modelo Eliza Samudio. O crime foi investigado, gente foi presa, condenada, o corpo nunca foi encontrado, ninguém confessou o crime, o delegado ganhou seus minutos de fama, a imprensa trabalhou e ganhou manchetes, Bruno foi condenado, cumpriu parte da pena, a sentença nunca foi julgada em segunda instância e o réu esteve preso sem sentença que justificasse sua prisão por tanto tempo. Acertada ou não a decisão do STF em soltá-lo, ele encontra emprego (coisa raríssima para um ex-presidiário), é aceito pelo Boa Esporte. É muita névoa para um só caso.
Mas a patrocinadora do clube, em função da decisão da Diretoria, decide retirar o patrocínio, o mesmo fazendo a Prefeitura Municipal de Varginha. A opinião popular julgando o acusado e sentenciando o que só a Justiça deve fazê-lo.
O segundo caso: o Ministério Público apresentou as denúncias de superfaturamento na construção de hospitais no Maranhão, onde mostra que há indícios, evidências e provas de uma quadrilha que ganhou milhões fraudando as licitações e recebendo um “fluxo de propinas” (palavras do delator) que ajudou nas campanhas eleitorais no estado. O juiz substituto que decidiu inocentar a ex-governadora e filha do “ilustre” José Sarney, não contente com a sentença estranha que exarou, ainda se deu a ensinar às mais altas cortes como se aplica o Código Penal.
No primeiro caso sem a prova de um corpo e sem a confissão de alguém, se juntaram evidências e coincidências e se condenou. No segundo caso, com as evidências, os comprovantes de fraude e superfaturamento e provas da transferência de recursos, o juiz absolve.
Causa-me estranheza a facilidade com que as cortes brasileiras, ao lidar com sobrenomes ilustres ou autoridades das três esferas, tem tido o cuidado de não ver provas que justifiquem a condenação e promovem a absolvição. Assim foi com a própria Roseana e o senador Lobão no STF, com o Renan no caso das Notas Fiscais frias que não foi visto como falsidade ideológica, o Collor no processo do impeachment, o deputado Russomano, para ficar em só alguns exemplos.
Agora temos os deputados e senadores denunciados pelas delações na Lava Jato, com a confissão de 77 executivos e os donos da construtora que afirmaram sob juramento que pagaram milhões a todos os partidos políticos. Como eles, deputados e senadores, têm o poder da caneta, movem-se nas sombras, como foi no dia que tentaram tal movimento quando do desastre da Chapecoense, e pretendem promulgar uma lei que anistie toda e qualquer contribuição feita para campanhas políticas. Com isto, todos os detentores de mandatos obtidos com vultosas somas de dinheiro empregado em suas campanhas, que alugaram seus mandatos para promover leis e medidas provisórias que beneficiassem os doadores de suas campanhas, os saqueadores dos Fundos de Previdência, os autorizadores de empréstimos vultosos via BNDES a empresas sabidamente inviáveis, sejam inocentados de todo e qualquer crime.
Doadores, saqueadores da Petrobrás e do erário, criminosas travestidos de empresários, os Cabrais da vida e suas viagens, contas e joias, O Vaccari, Duque, Zé Dirceu, Barusco, Youssef, e tantos outros, estariam de volta às ruas.
É hora de nós, os patrocinadores deste Esporte Clube do Colarinho Branco, retirarmos o patrocínio, condenarmos quem tenta tal crime de lesa-pátria, onde criminosos fazem as leis para benefício próprio. La atrás, alguém me ensinou que é crime quando se promulga uma lei com animus legendi, com o objetivo de culpar ou beneficiar uma pessoa ou grupo de pessoas específico. O princípio da impessoalidade será quebrado e a nação será afogada na lama, porque jogada nela já está.

Marcos Inhauser

quarta-feira, 1 de março de 2017

QUARTA DE CINZAS NA LAVA JATO

É verdade que o uso litúrgico das cinzas como símbolo de arrependimento remonta aos tempos bíblicos. Podemos ver o uso delas no arrependimento em Ester, quando Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas ao saber do decreto de Asuero I (Xerxes, 485-464 AC, da Pérsia, que condenou à morte todos os judeus de seu império Est 4:1). Outro personagem, Jó, mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42:6). Daniel afirmou: "Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza" (Dn 9:3). O povo de Nínive proclamou jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3:5-6). São exemplos do Antigo Testamento que mostram a prática estabelecida de valer-se das cinzas como símbolo de arrependimento.
Jesus fez referência ao uso das cinzas: "Ai de ti, Corazaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas teriam se arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11:21).
Por outro lado, as cinzas também são símbolo de algo que foi destruído, queimado, que virou pó. Elas são a evidência do aniquilamento. “Tudo virou cinzas” é uma expressão que denota derrota, impossibilidade de se recuperar ou ressuscitar.
Quando penso na quarta-feira de cinzas fico entre a cruz e a espada. Não sei se as cinzas, no caso do brasileiro, seriam símbolo de arrependimento ou de aniquilamento. Digo isto porque o Carnaval tem sido um evento nacional que vem ganhando contornos cada vez maiores a cada ano, e se tem explorado comercialmente as festas que em seu nome se realiza. Muitos cometem excessos de todos os gêneros e pode ser que, ao voltar à vida de trabalho e estudos, se arrependam dos excessos cometidos e por eles peçam perdão.
Por outro lado, talvez se deva pensar na quarta de cinzas como sinal de aniquilamento, vez que, a grande maioria que se esfalfou nos cinco dias, chega à quarta em frangalhos, feito cinza, porque a energia, a vitalidade e parte da saúde estão acabadas.
Mas o que realmente a nação gostaria de ver é uma confissão de pecado e arrependimentos dos políticos brasileiros, por atos de comissão e de omissão. Gente confessando que errou, que roubou, que montou esquemas e que viesse à luz, não numa delação premiada, mas em ato genuíno de arrependimento.
Gostaria de ver também os que, mesmo não tendo participado ativamente, mas que sabiam dos atos e nunca fizeram nada para impedi-los. Pecaram pela omissão!
Mas há mais um aspecto: a delação premiada. Para os que negociaram propinas, contratos, maracutaias, vantagens, esquemas, reeleições, na Delação Premiada continuam a fazer seus acordos espúrios: trocam a informação pela propina de uma sentença mais branda e curta, trocam a cela pela tornozeleira, pagam causídicos que, tal como os lavadores de dinheiro, somem com os rastros das suas operações. Advogados especializados em apagar rastros e trazer vantagens para os clientes, sendo a maior delas a liberdade o mais breve possível para que possam desfrutar do que amealharam.
A sentença reduzida é a propina para corruptos que fingem passar por uma cerimônia de arrependimento vestindo-se de cinzas!
Marcos Inhauser